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Portugal: Mais Austeridade, Porque Tarda a Revolução?

Este post faz parte da cobertura especial Europa em Crise

O governo português liderado por Pedro Passos Coelho afasta-se, cada vez mais, das promessas eleitorais e do caminho que prometeu seguir no período eleitoral, o que está a gerar uma onda de descontentamento manifestada, sobretudo, nas redes sociais.

Na noite de 7 de Setembro de 2012, o Primeiro-Ministro, fez uma comunicação ao país, transmitida em directo na televisão pública, pouco tempo antes da transmissão de um jogo de futebol, anunciando mais medidas de austeridade que foram de imediato discutidas por alguns utilizadores do Twitter através das hashtags #Passos e #Austeridade. Ângelo Fernandes (@angelofernandes), por exemplo, escrevia:

Basicamente aquele senhor acabou de me dizer que na minha casa vamos ter um decréscimo de 14% no orçamento. Felicidade ao rubro. #passos

Sátira à medida anunciada da subida de 11% para 18% da contribuição para a Segurança Social, alargada ao sector privado. Cartoon de Zouzacomics

Sátira à medida anunciada da subida da contribuição para a Segurança Social de 11% para 18% , alargada ao sector privado. Cartoon de Zouzacomics

José Guilherme M. (@guilherme_m) lamentava:

Vou perder o equivalente a um mês de ordenado por ano. Que dizer. #austeridade

Durante a tarde, o momento escolhido pelo Primeiro-Ministro para fazer a comunicação, antes do “futebol e tourada” na televisão pública, em vias de privatização, tinha já sido alvo de críticas. Sílvia Vaz Guedes (@SilviaGuedes) previa que a comunicação de Passos Coelho fosse “abafada” pelo jogo de futebol:

Isto de dar as más notícias antes do jogo foi bem pensado, ó Passos. Só se vai falar de futebol nas redes sociais.

Porém, as previsões de que o futebol iria fazer esquecer a comunicação ao país, não se confirmaram. Minutos depois de o anúncio ter sido feito, as críticas começaram a invadir a página oficial de Passos Coelho, no Facebook, com claras referências às suas promessas eleitorais.

As redes sociais, muito usadas pelo actual líder do Governo (@passoscoelho) durante o período eleitoral e pré-eleitoral, sobretudo o Twitter onde ainda figuram algumas dessas promessas, pareciam ter sido abandonadas:

Pedro Passos Coelho e a esposa, na noite em que anunciou as novas medidas de austeridade. Imagem partilhada na página de Facebook "Tugaleaks"

Pedro Passos Coelho e a esposa, na noite em que anunciou as novas medidas de austeridade. Imagem no Facebook de “Tugaleaks” (aqui reproduzida com permissão)

A pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos. (24 de Março de 2011)

A ideia que se foi gerando de que o PSD [Partido Social Democrata, actualmente no poder] vai aumentar o IVA não tem fundamento. (30 de Março de 2011)

Já ouvi o primeiro-ministro [José Sócrates] dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate. (1 de Abril de 2011)

O PSD chumbou o PEC 4 [Pacto de Estabilidade e Crescimento] porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento. (12 de Abril de 2011)

Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português. (2 de Maio de 2011)

Todavia, um dia depois de ter anunciado as novas medidas de austeridade, Passos Coelho voltou a utilizar o Facebook para fazer um comunicado ao país, referindo-se aos utilizadores como “amigos” e assinando apenas como “Pedro”.

Queria escrever-vos hoje, nesta página pessoal, não como Primeiro-Ministro mas como cidadão e como pai, para vos dizer apenas isto: esta história não acaba assim. Não baixaremos os braços até o trabalho estar feito, e nunca esqueceremos que os nossos filhos nos estão a ver, e que é por eles e para eles que continuaremos, hoje, amanhã e enquanto for necessário, a sacrificar tanto para recuperar um Portugal onde eles não precisarão de o fazer. Obrigado a todos. Pedro

As críticas voltaram a inundar o mural do Primeiro-Ministro, passando já de 35.000 comentários (na altura da publicação deste artigo), e a revolta inclui mesmo algumas pessoas que confessam ter votado nele.

Imagem partilhada na página do Facebook relativa ao evento "Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas vidas"

Imagem partilhada na página do Facebook relativa ao evento “Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas vidas”

Apesar das críticas e do tom agressivo e insultuoso usado por alguns internautas, os ânimos parecem estar inflamados apenas nas plataformas online. Nas ruas, ainda não há protestos e os militantes de um dos partidos historicamente mais mobilizadores, o Partido Comunista Português, trocaram os protestos por um fim-de-semana de confraternização na festa do partido, que se realiza todos os anos, desde 1976.

Ao contrário de outros países que atravessam uma situação semelhante, as pessoas tardam em sair à rua para mostrar a sua insatisfação e são poucas as alternativas e soluções apontadas. As publicações da maior parte dos utilizadores do Facebook e do Twitter, revelam insatisfação, mas são pouco mais do que isso. Um bom exemplo é a publicação de André Garcia (@andrefgarcia) que escreveu:

aguardo serenamente por um golpe de estado em Portugal

Para já, estão marcadas  mais de uma dezena de manifestações de norte a sul do país para o dia 15 de Setembro com o mote “Que se lixe a Troika! Queremos as nossas vidas”, incluindo as maiores cidades de Portugal continental: Lisboa, PortoCoimbraBraga e a cidade do Funchal, na ilha da Madeira, (que contam com cerca de 20.000 intenções de participação, no total, no momento de publicação deste artigo).

Foi através das redes sociais que, em 2010, ganhou força a manifestação da Geração à Rasca que estaria na origem da queda do Governo de José Sócrates.

Este post faz parte da cobertura especial Europa em Crise

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