Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Na Copa do Mundo do Brasil, brutalidade policial atinge manifestantes e jornalistas

Cartum de Pirikart, uso livre.

Cartum de Pirikart, uso livre.

Algumas horas antes da abertura da Copa do Mundo no Brasil, que ocorreria no Estádio do Corinthians, vulgo Itaquerão, milhares de pessoas se preparavam para marchar pela principal via de ligação ao estádio. Se preparavam, pois antes mesmo da manifestação começar [es] foram atacados pela Polícia Militar de São Paulo com extrema violência.

Segundo o site do coletivo Advogados Ativistas:

O dia iniciou-se em São Paulo com o sítio à cidade, exercido pelas forças de segurança pública empregadas pela Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e Exército, entre outros agentes de segurança. 

Os advogados ainda elencaram, em seu site, uma lista de incorreções e ilegalidades cometidas pelas forças de segurança em São Paulo, completando:

Jornalistas acabaram por ver-se tão acuados quanto os demais atores da manifestação, na medida em que estes os buscavam como um possível “porto seguro”, independentemente do tipo ou nacionalidade dos profissionais envolvidos.

Em meio aos ataques policiais com balas de borracha e bombas de gás e de efeito moral contra manifestantes que tentavam armar barricadas e se defender da melhor maneira possível, inclusive se refugiando dentro do Sindicato dos Metroviários que, naquele momento, se preparavam para também protestar por seus direitos, a imprensa se tornou o alvo principal da polícia.

Logo no início dos ataques uma jornalista, Shasta Darlington, e uma produtora, Barbara Arvanitidis, ambas da CNN foram atingidas por estilhaços de bombas [en] jogadas pela PM. No mesmo protesto o jornalista argentino Rodrigo Abd foi atingido por estilhaços na perna, um jornalista francês foi atingido por uma bala de borracha na perna e um cinegrafista brasileiro do SBT foi atingido por estilhaços na cabeça.

A ativista Daniele Lima narrou em seu Facebook como foi seu dia e a repressão policial:

A Tropa de Choque chegou também, batendo seus cassetetes nos escudos e depois na gente de novo. Confusão, fecharam a estação, chamaram a cavalaria, fecharam as ruas em volta.

Além dos jornalistas, manifestantes foram igualmente feridos e presos e um caso especial chamou a atenção do mundo. O professor de inglês Rafael Marques Lusvarghi, 29, depois de ser atingido no peito por balas de borracha é cercado por policiais e, sem oferecer resistência, é imobilizado com violência e spray de pimenta é jogado em seu rosto. O perfil no Facebook do Anonymous Rio conta a história:

[Ele] estava parado sozinho em frente à tropa ao lado do metrô Carrão quando levou dois tiros de borracha no peito. Em seguida, ele foi imobilizado pelo próprio comandante da operação e ao menos mais cinco PMs. Mesmo algemado e imobilizado, Lusvarghi foi atingido por um jato de spray de pimenta nos olhos.

Por causa da repercussão das imagens, ele perdeu nesta sexta seus dois empregos – em uma escola e em uma multinacional do setor de tecnologia.

Manifestante rendido é torturado com spray de pimenta no rosto. Imagem de uso livre.

Manifestante rendido é torturado com spray de pimenta no rosto. Imagem de uso livre.

Apenas neste protesto foram 47 pessoas detidas e 37 feridas pela polícia. O professor da UFRJ, Marcelo Castañeda, escreveu sobre a violência em São Paulo:

A PM de São Paulo está brincando com fogo: agrediu indiscriminadamente manifestantes, jornalistas e quem estivesse pela frente. Tem repórter da CNN ferida. A PM trabalhou para dispersar a manifestação antes de se concentrar, bloqueou a saída de metrô. Detidos e feridos no local. Os manifestantes continuam resistindo. Esse é o padrão FIFA: violência máxima! Toda solidariedade aos que foram covardemente agredidos!

Ainda em São Paulo o jornalista catalão Sergi Altadill teve uma perfuração no tímpano [es] após uma bomba de gás lançada [es] pela polícia estourar ao seu lado e encontra-se internado [es] em um hospital da cidade realizando exames.

No Rio de Janeiro um protesto pacifico contra a Copa foi também reprimido pela Polícia Militar. Na confusão o professor Pedro Guilherme Freire acabou sendo agredido e arrastado pela PM e detido. A agressão também foi gravada por ativistas.

Professor Pedro Freire agredido e arrastado pela PM. Foto de Daniel Fonsêca, usada com permissão.

Professor Pedro Freire agredido e arrastado pela PM. Foto de Daniel Fonsêca, usada com permissão.

O ativista Rafael Rezende postou no Facebook um vídeo que mostra o momento em que um PM ataca uma manifestante pelas costas, dando início à violência generalizada contra manifestantes:

 

 

 
A ativista Paula Kossatz postou ainda um vídeo onde ativistas são agredidos gratuitamente pela polícia em protesto noturno na orla do Rio de Janeiro:

 

 

 
Em Belo Horizonte, Minas Gerais, o fotógrafo da agência Reuters, Samuel Costa, foi ferido na cabeça enquanto a midialivrista e membro do Coletivo Mídia Ninja Karinny de Magalhães foi presa e torturada pela Polícia Militar. O coletivo narrou no Facebook:

Ao transmitir ao vivo o ato ‘Copa sem povo, tô na rua de novo’ Karinny sofreu longa série de arbitrariedades por parte da Polícia Militar.

[...]

Mantida por mais de uma hora no interior de uma viatura, foi conduzida em sigilo para um quartel, onde foi espancada por cinco policiais até perder a consciência. Em seguida foi levada até a 6ª Delegacia Regional de Polícia Civil –Noroeste, onde passou a noite, prestou depoimento e realizou o exame de corpo delito.

Karinny é ré primária e está sendo acusada de fazer parte do grupo que virou de ponta cabeça uma viatura da Polícia Civil durante os protestos. Os vídeos da transmissão ao vivo mostram todo seu percurso durante a manifestação e comprovam a falsidade dessa afirmação. Mais dois manifestantes que participavam da ação também foram detidos.

Karinny de Magalhães. Foto de uso livre.

A ativista Karinny de Magalhães. Foto de uso livre.

No dia seguinte o coletivo Mídia Ninja informou de sua soltura:

Alvará de Soltura não só da NINJA Karinny Magalhães mas também dos outros ativistas presos acaba de ser emitido e o oficial de justiça já esta a caminho do presídio para liberá-los.

A Grande notícia é que a mobilização feita por todos nós conseguiu a liberação de TODOS os ativistas presos ILEGALMENTE durante os protestos de ontem em BH!

O coletivo Pós TV reproduziu vídeo gravado por Karinny e transmitido ao vivo por streaming para todo o mundo em que a mostra sendo presa (a partir de 1:10):

Em Minas Gerais foram 18 presos.

O site Revolution News divulgou também vídeo que mostra jornalistas do coletivo Mariachi sendo presos no Rio de Janeiro:

Novos protestos por todo o país são esperados nos próximos dias e especialmente nos dias dos jogos do Brasil com os lemas #NãoVaiTerCopa e “Sem Direitos Não Vai Ter Copa”.

  • Efrem

    A polícia mantem a ordem e defende o progresso.