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Menor preso a poste: barbárie racial exposta em zona nobre do Rio de Janeiro

O jovem preso ao poste apenas com um pedaço de jornal para cobrir sua nudez após ser humilhado. Foto de uso livre.

O jovem preso ao poste apenas com um pedaço de jornal para cobrir sua nudez após ser humilhado. Foto de uso livre.

Um jovem negro, menor de idade, foi encontrado sentado no chão na praia de Botafogo, na zona nobre do Rio de Janeiro, completamente nu, e preso a um poste de luz pelo pescoço, com um cadeado para bicicletas. A cena, presenciada e denunciada pela ativista Yvonne Bezerra de Mello chocou o país, mas infelizmente se mostrou não ser um caso isolado, dado que ataques de grupos de “justiceiros” começam a ser algo comum no Rio de Janeiro.

Yvonne escreveu em seu perfil do Facebook, no dia primeiro de fevereiro, que se preparava para dormir quando foi chamada por um amigo que passava de carro pela Av. Rui Barbosa quando “viu um jovem todo machucado, nu e preso a um poste com uma tranca de bicicleta.Tinha sido espancado por uma gangue de moto que costuma roubar aqui nessa minha rua”. Ela acionou os bombeiros para soltá-lo e ele foi em seguida levado ao hospital. Ela, por sua vez, vem recebendo ameaças.

No meio do caminho tinha um menino (amarrado ao poste)
Tinha um menino (amarrado ao poste) no meio do caminho, Rosiane Rodrigues

Em depoimento à polícia o jovem disse ter sido perseguido por um grupo de cerca de 30 homens em motos, armados com ao menos uma pistola, enquanto caminhava com 3 amigos (dois conseguiram fugir) para tomar um banho de mar, e depois espancado até ser despido e amarrado no poste. O jovem de 15 anos vive nas ruas do Rio há pelo menos 2 anos depois de furtar uma furadeira elétrica de um vizinho da família e ser forçado a deixar sua casa.

A polícia acredita que os responsáveis pela agressão sejam os “Justiceiros do Flamengo”, que agridem torturam pessoas que consideram suspeitas e são também acusados de agredir gays. Cerca de 15 suspeitos de pertencer ao grupo foram presos pela polícia.

Cartum de Carlos Latuff, uso livre.

Cartum de Carlos Latuff, uso livre.

A jornalista Rosiane Rodrigues, escrevendo para a Afropress, criticou a atitude de Yvonne de tirar uma foto da vítima e postá-la no Facebook ao invés de apenas chamar os bombeiros e uma ambulância. Para ela:

A cena chocou. É possível que o motivo da consternação tenha sido o local da ação e não a ação em si. Sim. Um menino, amarrado ao poste, em uma rua da Zona Sul do Rio de Janeiro, não é um fato comum. Meninos, amarrados em postes, baleados, espancados, violentados não cabem na paisagem da Zona Sul da cidade. Essas devem ser imagens periféricas, cotidianas das favelas, dos subúrbios. Imagens de barbárie que já não chocam nem causam espanto aos olhos dos que estão – e devem continuar – à margem. 

O “menino amarrado ao poste”‘ deu sorte. Ele poderia estar morto. Se assim fosse, seria mais um a entrar para a estatística da barbárie cometida diuturnamente nos becos e vielas em todo País. Imagens de corpos violados, machucados, inertes… reflexos distantes de uma realidade encoberta aos olhos sensíveis de uma parcela da população que teima em não querer enxergar: a indústria do genocídio da juventude preta e pobre.

O ativista Caio Almeida, no Facebook, alertou para o perigo da formação de uma “milícia fascista” no Rio de Janeiro e acrescentou que:

Esses caras agridem homossexuais, ambulantes que não concordam com o preço cobrado pela cerveja(e viva o $surrealismo coxinha!), usuários de maconha ou negros sozinhos. Em suma, tocam o terror para garantir que o bairro deles sejam para os ricos, brancos e com os mesmos hábitos sociais(e até sexuais!) que eles.

Segundo o rapaz agredido, todos os agressores eram brancos, “playboys”, menos um, que seria pardo.

Montagem de Paul Henry Jr.

Montagem de Paul Henry Jr.

O ativista Paul Henry Jr escreveu no Facebook que mesmo que o rapaz seja realmente responsável por furtos na região, a atitude de espancá-lo e humilhá-lo “não deixa de ser brutal”, e que caberia à polícia investigar a veracidade das acusações e levá-lo a julgamento. Ele completa:

Mas a Ku Klux Klan versão brasileira que de tão cômoda nem sequer precisa usar capuz e lençóis, age livremente sem ser perturbada fazendo nas ruas a sua maneira aquilo que considera justiça.

Em “09 de janeiro de 2010 [Algumas fontes indicam que ocorreu em 2009 - nota GV], na Avenida Pasteur, Botafogo, quase em frente à IBM, motoqueiros despiram um rapaz negro e o amarraram nu, sob sol escaldante, na calçada quente”, descreve João Batista Damasceno, acrescentando que ele havia sido acusado de tentar furtar uma moto. Bombeiros teriam ajudado motoqueiros a tirar sua roupa, e um Guarda Municipal teria presenciado a cena sem intervir.

O papel da mídia em espalhar o horror

A revolta com o caso do jovem torturado e preso ao poste poderia ter sido menor não fosse a intervenção da âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, conhecida pelos seus comentários conservadores, que, em horário nobre do canal televisivo, declarou:

“Num país que sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível”, disse a apresentadora. “O Estado é omisso, a polícia desmoralizada, a Justiça é falha… O que resta ao cidadão de bem, que ainda por cima foi desarmado? Se defender, é claro”. E finalizou: “O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite”.

A reação foi imediata, tanto de apoio às suas palavras de incitação ao ódio e violência, quanto de aberto repúdio. O empresário Vinicius Duarte comentou no Facebook

Quando um telejornal de grande audiência permite que se faça apologia a um crime (sim, ~cidadão de bem desarmado~, acorrentar bandidos ou inocentes nus em postes é CRIME), é sinal que a barbárie está vencendo o jogo.

O perfil do coletivo social Pedra no Sapato, fazendo trocadilho com o nome da apresentadora, declarou que ela havia passado de “todos os limites”:

[ Cheira a Nazi ]
Defendeu a ação da milicia carioca que prendeu o adolescente ladrão e negro num poste com uma tranca de bicicleta no pescoço, o espancou e o deixou nu. Acha normal, natural algo assim. Afinal, já que vivemos em estado de barbárie, não custa nada nós mesmos começarmos as nossas, né? Ninguém esta defendendo os atos de banditismo do moleque, agora chamar de ‘compreensível’ e ‘legítima defesa’ uma barbaridade dessas é sinal de que essa mulher não tem um pingo de humanidade!

Montagem do ativista Julio Ferreira

Montagem do ativista Julio Ferreira

O estudante Moisés Teixeira exigiu que Sheherazade “seja responsabilizada pela asneira emitida em horário nobre” e que os que a apoiaram “reflitam um pouco antes de emitir opiniões cheias de frases de efeito que são apenas burrice polida”.

E, no que depender do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, a punição virá. O Sindicato e sua Comissão de Ética não apenas manifestaram seu repúdio, como exigiram que a FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas – tome uma atitude “neste e em outros casos de violação dos direitos humanos e do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que ocorrem de forma rotineira em programas de radiodifusão no nosso país”. O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal também se manifestou repudiando as declarações de Sheherazade e informando que também pediriam ao Ministério Público para agir.

Por sua vez, o PSOL – Partido Socialismo e Liberdade- informou que também irá ao Ministério Público exigir punição para a apresentadora.

Para o ativista e jornalista Rodrigo Mariano, Sheherazade “chegou em um nível tal que passou a apoiar assassinos abertamente em rede nacional. E a moça divide a profissão comigo, veja só. Pegou o juramento que fez e inverteu. Limpou o rabo com o diploma, certamente.”

Após toda a repercussão, o SBT emitiu nota informando que as opiniões da jornalista não representariam as do canal, e a própria, usando sue espaço no Jornal do SBT, tentou se explicar, afirmando estar “do lado do bem, ao lado dos anjos” e que seria:

uma crítica da violência. Eu defendo as pessoas de bem deste País, que foram abandonadas à própria sorte, porque não tem polícia, não tem segurança pública. O que eu fiz não foi defender a atitude dos justiceiros. O que eu defendi foi o direito da população de se defender quando o Estado é omisso

Imagem de Divulgação do SBT.

Rachel Cheherazade. Imagem de Divulgação do SBT.

Em outras palavras, Sheherazade mantém uma visão que, para o ativista Robson Fernantes, “é tradição entre a direita conservadora brasileira”, e que consiste em “fazer uma divisão maniqueísta da sociedade entre ‘cidadãos de bem’ e ‘vagabundos'”.

Ele acrescenta:

Nessa crença que divide a sociedade entre “bons” e “maus”, os primeiros seriam pessoas “cidadãs” que “pagam impostos”, “respeitam as leis”, “lutam para vencer na vida” e se dizem “incapazes” de cometer qualquer crime ou dano contra outras pessoas e também contra animais não humanos. E os segundos seriam inimigos da ordem, ameaçadores da vida alheia, preferidores de “caminhos fáceis”, como a criminalidade ou o recebimento de benefícios financeiros pelo Estado, sendo muitos deles autênticos demônios do mal que deveriam ser presos, torturados pela polícia e/ou mortos.

O policial militar do estado da Bahia, e colaborador do Global Voices, Danillo Ferreira, deixou claro:

Nenhuma violência deve ser celebrada. Tentativas violentas de vingança e “resposta” a outros atos violentos apenas alimentam os ciclos de violência. 

Uma petição que até o momento conta com mais de 50 mil assinaturas foi criada para exigir a punição da jornalista. Um evento no Facebook foi criado para, de forma bem humorada, exigir a substituição do jornal apresentado por Sheherazade pelo popular seriado mexicano, Chaves, cujo principal personagem ”tem muito mais a nos ensinar sobre tolerância e igualdade”.

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