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Beijo gay: A TV brasileira sai do armário

Cena do beijo entre Felix e Niko.

Cena do beijo entre Felix e Niko no último episódio da novela “Amor à Vida”

Na noite de sexta, 31 de janeiro de 2014, milhões de brasileiros ficaram em casa para assistir ao final da novela “Amor à Vida”, da Rede Globo. Mesmo muitos que costumeiramente não assistem a novelas acabaram por esperar, ansiosos, pelo último capítulo. A razão? O chamado primeiro beijo gay da teledramaturgia brasileira.

Após uma imensa campanha pelas redes sociais pedindo ao autor da novela, Walcyr Carrasco, para que o casal homossexual composto por Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) se beijassem, tudo saiu como os ativistas, simpatizantes e população em geral esperavam.

Era possível sentir a tensão [en] nas ruas e nas redes sociais e apesar das cenas surreais, do enredo irreal e das mudanças abruptas de roteiro, o país inteiro esperava por uma única cena. Sem dúvida a cena do beijo não mudará a realidade de um país abertamente homofóbico, onde mais se matam LGBTs no mundo, mas é um avanço na luta, uma pequena vitória depois de toda a pressão exercida pelo movimento LGBT e simpatizantes. É necessário para nos fazer sair de nossa zona de conforto e enfrentar a realidade, mostrar ao mundo que gays existem, e não só, que são pessoas normais, que amam como qualquer outro e tem os mesmos direitos.

Todo beijo é um ato político e como comentou o professor Tulio Vianna:

Estou feliz por meus amigos e amigas LGBTs, mas estou feliz sobretudo por nós heterossexuais que nos tornamos um pouquinho menos opressores, com a violência simbólica que exercemos a todo dia para obrigar a todos a terem a mesma orientação sexual que a nossa. Este é um avanço não só para os LGBTs, mas para a laicidade e para toda a democracia.

Um dos incitadores da campanha #BeijaFelix, o deputado federal e único gay assumido no parlamento brasileiro, Jean Wyllys, comentou:

Foi um passo adiante e positivo na representação dos modos de vida homossexuais e da homoafetividade. Tem um efeito pedagógico para as próximas gerações e obriga as atuais a ao menos repensarem seus preconceitos. Foi um acréscimo de autoestima na vida dos gays e lésbicas, na medida quem valorizou nossa forma de amar e nossos arranjos familiares

O ativista argentino radicado no Brasil Bruno Bimbi escreveu em seu blog sobre o significado do beijo para o público brasileiro:

Es difícil entender el peso simbólico de ese beso sin ser brasileño. Inclusive para quien, como el autor de esta columna, vive hace varios años en Río de Janeiro y nunca antes se había sentido tan extranjero, en el sentido más alienígena de la palabra, tratando de comprender la polémica y todas las emociones, presiones, miedos y esperanzas que corrían atrás del final feliz que finalmente ocurrió hace unas horas. La novela de las nueve de la TV Globo es un poderoso productor de sentidos y formador de subjetividades que, cada noche, reúne a viejos y jóvenes, hombres y mujeres, negros y blancos, héteros y gays de todas las clases sociales. Es la compañía de millones de hogares durante la cena. Es de lo que hablarán mañana el portero de mi edificio, mis profesoras del doctorado, mis compañeros de trabajo y militancia, la vecina de al lado y el mozo del bar de la esquina [...] En sus cuentas de Twitter, aún sin palabras, mientras tantos festejaban, los pastores del odio se llamaron a silencio.

É difícil entender o peso simbólico daquele beijo sem ser brasileiro. Mesmo para aqueles que, como o autor desta coluna, vivem há vários anos no Rio de Janeiro e nunca antes havia se sentido tão estranho no sentido mais alienígena da palavra, tentando entender a controvérsia e todas as emoções, pressões, medos e as esperanças que corriam atrás de um final feliz que finalmente aconteceu há poucas horas. A novela das nove da TV Globo é um produtor poderoso de significados e formador de subjetividades que a cada noite reúne jovens e velhos, homens e mulheres, negros e brancos, gays e heterossexuais de todas as classes sociais. É a companhia de milhões de casas durante o jantar. É do que o porteiro do meu prédio falará amanhã, do que meus professores de doutorado, meus colegas de trabalho e militância, a vizinha e o barman da esquina [falarão] [ ...] Em suas contas do Twitter, mesmo sem palavras, enquanto muitos comemoravam, os pastores do ódio ficaram em silêncio

Beijos passados mais discretos

Este não foi o primeiro beijo gay da TV brasileira, mas sem dúvida foi o mais importante, dado o significado das novelas da Rede Globo e o fato desta rede ser a maior do país. O primeiro beijo gay da TV brasileira, segundo a economista Renata Lins, no Facebook, foi dado na minissérie “Mãe de Santo”, da extinta TV Manchete, em 1990, há 24 anos, entre um homem branco e outro negro.

Em 12 de maio de 2011, ocorreu o que muitos consideraram o primeiro beijo gay lésbico da TV brasileira, no SBT, durante a novela Amor e Revolução, de Tiago Santiago. Nela, Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre) se beijaram apaixonadamente, mas por se tratar de uma emissora de menor porte e somente com tradição recente em novelas, o fato foi considerado de menor importância na época.

Cena de beijo na novela "Amor e Revolução"

Cena de beijo na novela “Amor e Revolução”

Em 2010, ainda, o PSOL – Partido Socialismo e Liberdade – veiculou durante a campanha eleitoral um beijo gay muito comentado à época.

É gol!

“A torcida pelo beijo gay na novela foi bem maior do que a torcida por qualquer time de futebol”, comentou o professor Eduardo Sterzi. Muitos internautas comentaram sobre as comemorações que eram ouvidas por todo o país, com pessoas gritando de suas janelas como se seu time tivesse feito um gol.

Gritos de “Chupa Feliciano“, em referência ao deputado federal evangélico e notoriamente homofóbico Marco Feliciano, sobre o qual o Global Voices reportou em março de 2013 quando o deputado foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados, podiam ser ouvidos. No Twitter, foram várias as reações bem humoradas ao beijo gay e em repúdio a Marco Feliciano.

Tuíte do ator Thiago Fragoso agradecendo aos fãs

Tuíte do ator Thiago Fragoso agradecendo aos fãs

O acadêmico Fabio Malini, no Facebook, alertou aos políticos dos perigos que correm enquanto se colocam contra os direitos das minorias e lembrou das reivindicações dos protestos massivos que tomaram o país em junho de 2013, cujos reflexos são ainda muito visíveis:

Há várias interpretações possíveis para o que ocorre na sociedade brasileira. Mas eu queria salientar que a afirmação dos direitos das minorias foi amplamente reivindicada nos protestos de junho. Foi algo radical nas ruas. E a Globo se viu pressionada por um lado pelo fãs do casal da novela; e, por outro, pelo imaginário do “O Povo Não é Bobo” recuperado pelos “vândalos” de junho. Não havia outra solução para a emissora, senão Liberar. Que o fato vire um recado político das urnas em 2014: no lugar de ceder à base religiosa conservadora, as forças políticas de esquerda (se elas ainda existirem) afirmem todos os direitos possíveis das minorias. Do contrário, virarão ainda mais reféns de uma minoria política que só anda para atrás.

O jornalista Leonardo Sakamoto comemorou o beijo, mas lembrou que a “Globo tem seu milhão de defeitos, mas não é burra”, e que “acabou criando um fato histórico que faz esquecer sua própria relutância em abordar o tema”.

Em outras palavras, o beijo “poderia ter aparecido em qualquer um dos capítulos do último mês”, mas a Globo preferiu criar expectativa, atrair o público e mesmo medir a popularidade que teria um beijo gay junto ao público em um momento em que a emissora tenta se aproximar do público evangélico conservador e diante de posições conservadoras mesmo do governo federal, cuja máxima representante, a presidente Dilma Rousseff, já havia declarado em anos anteriores que não faria “propaganda de opção sexual” quando perguntada sobre políticas pró-LGBTs em seu governo e o cancelamento recente de um programa de combate a homofobia em escolas.

Imagem do instagram de @ane_molina com a notificação de que sua foto foi deletada por infringir regras da rede social

Imagem do instagram de @ane_molina com a notificação de que sua foto foi deletada por infringir regras da rede social

Outros ainda criticaram a demora para que tal beijo acontecesse, como o diplomata Hugo Lorenzetti Neto ou alertaram para um fato importante: Ainda há muito para se lutar. Um beijo gay na TV não é o fim da luta, mas apenas uma pequena vitória.

O ator Mateus Solano, interprete de Félix, comentou em entrevista sobre o beijo:

É um pequeno passo na dramaturgia, mas um grande passo na sociedade

Por outro lado, ativistas e jornalistas não se juntaram às comemorações. Felipe chagas, em seu facebook, comentou:
A realidade, gente, é que nós estamos aqui, e o que vimos ontem nas telinhas (sic) foi apenas uma realidade retratada de forma mais que atrasada a partir do ponto de vista da burguesia (com seu núcleo familiar patriarcal, heterossexual e com prole) sobre a nossa existência. É tão vergonhoso as LGBTs se arrastarem por várias novelas para conseguirem um único beijo gay no principal canal de televisão no “horário nobre”, que me sinto revoltado. Sinto-me revoltado porque é humilhante saber que depois de tantos anos, com uma audiência exorbitante causado pelo principal personagem dessa obra ficcional (que é um ex-vilão gay que virou mocinho), que o tão esperado beijo foi um selinho que durou 4 segundos (ou menos que isso), na penúltima cena da novela depois das 23h duma sexta-feira. Patético, apenas.
Fernando Pardal acrescentou que a Globo apresentaria “um casal gay que se comporta exatamente como um casal heterossexual burguês” com o “propósito [de] tentar fazer com que este movimento histórico de aceitação de diferentes sexualidades [...] seja feito de forma o mais “tranquila” possível (para a burguesia e a família).
E quem comemora acriticamente este beijo como um “progresso” da Globo está ajudando nesta falsificação.
 
Sobrou espaço ainda para que a homofobia fosse pregada livremente pelas redes sociais por usuários como Natanael Martins (@Dc_Natanael) que considerou que a “apologia ao homossexualismo” da Rede Globo foi “um tapa na cara dos cristãos”, ou Coxa® (@Marcio1914) que disse que “as pessoas estão aplaudindo dois GAYS se beijando, não vai demorar muito e ser Viado será requisito obrigatório, quero morrer antes”.
Série de tuítes coletados pelo ativista Celso Dossi.

Série de tuítes coletados pelo ativista Celso Dossi da autointitulada “Psicóloga Cristã”, Marisa Lobo (@marisa_lobo), aliada do deputado Marco Feliciano

Com humor, a ativista Karla Joyce respondeu aos homofóbicos:
Ninguém morreu. Não doeu. Ninguém virou gay. Nenhuma autoridade não veio em pronunciamento à nação falar que agora haverá uma cartilha gay ou que entramos no regime da “”"Ditadura Gay”"”. Ninguém foi obrigado a consumar um casamento homoafeitvo. Não foi um “agora vão se comer no meio da rua”. Os cavaleiros do apocalipse não chegaram. A meteorologia não indica que esteja chovendo enxofre ou meteoros no Brasil.
A ativista Jarid Arraes, em seu facebook, escreveu emocionada:

Um amigo viu meu último post, falando da importância política do beijo na novela, e ligou chorando, muito feliz, dizendo que graças a cena final entre Félix e o Pai, o seu próprio pai bateu na porta do quarto dele as 4 da manhã.O pai, que chorava de soluçar, pediu perdão ao filho por toda discriminação e palavras de ódio. Disse que a partir daquele dia ele se arrependia e o aceitava. E que podia inclusive levar o namorado para almoçar no domingo com a família inteira.Só quem já passou por isso sabe…

Por fim, o blogueiro especializado em Tv, Gustavo Baena, expressou o sentimento de muitos:

Imagine o que significou o gesto dos personagens de Solano e Thiago para que milhares de jovens homossexuais possam elevar sua autoestima e conquistar espaço para o diálogo, a aceitação e o respeito dentro das próprias famílias, inclusive.

Este post foi escrito com a colaboração de Marcela Canavarro e Luis Henrique.
  • Anisio Camara

    Quem vive aqui em São Paulo vê beijos gay aos montes, no semáforo, transporte público, shoppings e no meio da rua mesmo, é banal.
    Achei muita fumaça, como se tivesse que sair na Globo pra virar oficial.
    Aos civilizados não deve ter chocado nada.