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Brasil em luto após o trágico incêndio no município de Santa Maria

Em 27 de janeiro último, a cidade universitária de Santa Maria, situada no centro do estado do Rio Grande do Sul, sofreu um trágico incêndio na boate Kiss. Considerado o segundo maior incêndio em número de vítimas no Brasil, o incidente levou à morte cerca de 231 pessoas, a maioria jovens, 90% por intoxicação.

O incêndio começou por volta das 2h30, quando a banda Gurizada Fandangueira tocava no palco, durante a festa “Agromerados”, organizada por alunos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O vocalista da banda ergueu  um centelhador de fogos de artifício e as faíscas atingiram o teto. As chamas se espalharam rapidamente. Seguranças e integrantes da banda tentaram apagar o fogo com extintores, sem sucesso.

Aos gritos de “fogo” o tumulto começou; um curto-circuito apagou a luz e sem indicações de saída, muitos se perderam no caminho. Alguns foram parar no banheiro. A boate não tinha saída de emergência: só havia um local de acesso, que funcionava como entrada e saída. As primeiras pessoas que chegaram a essa única porta acharam outra barreira – os seguranças, que impediam a passagem do público por falta de pagamento. Mesmo após a saída ser liberada, bombeiros e voluntários tiveram de quebrar as paredes da boate para aumentar a passagem e liberar parte da fumaça interna.

Boate Kiss depois do incêndio. Imagem partilhada no blog Sobre Isso.

Boate Kiss depois do incêndio. Imagem partilhada no blog Sobre Isso.

Um artigo na Veja cita o “assustador” depoimento de um sobrevivente, no Facebook. Ezequiel Real diz:

Acompanhei o início do fogo que veio das faíscas do sparkles e se propagou pelo teto nas esponjas do isolamento acústico. Não me apavorei porque não achei que poderia lidar com a situação, mas vi muita gente entrar em pânico, cair e desmaiar umas por cima das outras, era um mar de gente descontrolada. Vi que muita gente em crise acessou a porta mais próxima, que era a do banheiro e se alojaram lá dentro. Vi o pessoal que trabalhava se escondendo até dentro de freezers! Quando vi que não tinha mais jeito de sair pela saída principal dei a volta na área Vip e sai pela lateral empurrando e pisando por cima de muita gente, acredito que não sairia se não fosse pela força que utilizei para passar pelas pessoas, ao sair olhava para baixo e via que pisava e cruzava por cima de mulheres e homens desmaiados.

Imagem postada na página  facebook Salve o Planeta! (partilhada 13.256 vezes). Voluntários quebram paredes com picaretas para ajudar na tragédia.

Imagem postada na página facebook Salve o Planeta! (partilhada 13.256 vezes). Voluntários quebram paredes com picaretas para ajudar na tragédia. (Usada com permissão)

A via estreita e os carros estacionados atrapalharam o resgate. Ao tentarem entrar, bombeiros se depararam com uma barreira de corpos logo na porta – eram as vítimas que tentaram sair. Soldados tiveram de abrir caminho no meio dos corpos para tentar chegar às pessoas que ainda agonizavam. Muitos celulares tocavam ao mesmo tempo – eram parentes e amigos em busca de informações.

Findo o drama na boate, o desespero foi transferido para o Centro Desportivo Municipal, para onde os corpos das vítimas foram levados. Com a voz embargada pela emoção, Carlos Walau, um voluntário que ajudou no trabalho de identificação dos corpos, disse ao Jornal Zero Hora:

Transportei o corpo de uma menina que estava com um celular que não parava de tocar. Deu sinal de mensagem, li e era a mãe dela perguntando onde ela estava.

O jornal online Meio Bit fez uma crítica às redes sociais através do post:  Tragédia em Santa Maria – Onde está o poder das redes sociais? e relata a falta de sensibilidade e solidariedade humana, bem como a quantidade de  ”lixo” e “ruído” encontrada em uma situação onde o mais importante era passar informações sobre o ocorrido e sobre como ajudar da melhor forma possível:

(…) Sempre encontramos pessoas dispostas a ajudar, divulgando links, telefones, fazendo doações e algumas se voluntariando in loco (algo que não é possível para a maioria, por questões geográficas). Mas a tal da revolução silenciosa das redes sociais passa despercebida diante da enxurrada de bobagem que circula pelas redes. Em questão de minutos, o Facebook estava inundado de montagens religiosas, de pessoas culpando e condenando o dono da boate, dizendo que a polícia agiu errado, fazendo afirmações levianas sobre um assunto que desconheciam, motivadas sabe-se lá pelo quê. Se você pretende ajudar de alguma forma, neste link estão reunidas todas as informações necessárias.

Imagem de jeangalvao no instagram, #santamaria

Charge de Jean Galvão para a Folha. Partilhado no instagram, #santamaria (usado com permissão)

Constatou-se que o alvará do Corpo de bombeiros da boate estava vencido desde agosto de 2012. O site Direito e Trabalho publicou um post intitulado Santa Maria ou o Jogo da Morte, em que aponta problemas gravíssimos como a negligência dos envolvidos, a falta de fiscalização e a impunidade e declara entre outras coisas:

(…) com certeza muitos serão indiciados, muitos condenados pela opinião pública, mas poucos pela Justiça. A culpada pela tragédia é a cultura do “jeitinho”, a cultura do “amanhã eu faço”, a cultura do “vamos do jeito que dá”, do “o que eu vou ganhar com isso?”, do “o que eu vou perder com isso?” E, principalmente, a nossa cultura jurídico-administrativa. A administrativa que não fiscaliza, a jurídica que não pune. (…) Agora, diante da tragédia, o que podem esperar os responsáveis? (…) O máximo que poderemos ter, após muito tempo é um processo criminal por crime culposo e a condenação em cestas básicas. (…)

Uma petição Avaaz foi lançada para que se crie uma legislação no sentido de abolir totalmente a pirotecnia em ambientes fechados como boates e casas de show.

A Copa do Mundo e a Olimpíada foram citadas no portal da BBC. No site, o editor da rede em São Paulo, Gary Duffy, disse que os eventos devem pressionar mais o governo brasileiro para reforçar as normas de segurança e a fiscalização de locais públicos.

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