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Guiné-Bissau: Golpe de Estado e a Missão Militar de Angola

Ao cair da noite de quinta feira, 12 de Abril, dezenas de militares tomaram as ruas da capital da Guiné Bissau, a sede do histórico partido no poder, PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), e a Rádio Nacional, dando início a mais um golpe de estado num país que desde a sua independência em 1974 nunca viu um presidente eleito chegar ao fim do mandato.

Nas últimas semanas, dois eventos fizeram subir a tensão nas arenas política e militar: houve denúncias de “fraude generalizada” pela oposição na primeira volta das eleições presidenciais de 18 de Março (antecipadas devido ao falecimento do anterior presidente, Malam Bacai Sanhá, em Janeiro de 2012), conforme o Global Voices reportou, e foi feito o anúncio da retirada da Missão de Segurança Angolana no país, MISSANG.

Sede do candidato presidencial Carlos Gomes Junior (PAIGC), também conhecido como Cadogo, durante a campanha para as eleições presidenciais. Foto de Giuseppe Piazolla coypright Demotix (12/03/2012)

Sede do candidato presidencial Carlos Gomes Junior (PAIGC), também conhecido como Cadogo, durante a campanha para as eleições presidenciais. Foto de Giuseppe Piazzolla coypright Demotix (12/03/2012)

As Forças Armadas e a procura pelo armamento

Notícias sobre a retirada militar no início da semana já tinham lançado o alerta sobre a possibilidade de um golpe de estado estar em preparação. Os militares guineenses tinham tomado uma posição considerada política ao reivindicarem a entrega dos reforços de equipamentos militares  angolanos que a MISSANG recebeu após a tentativa falhada de golpe de estado em Dezembro de 2011 – “caso contrário que os devolvam para Angola”.

O Porta-Voz das Forças Armadas guineenses, Daba Na Walna, revelou ainda aos jornalistas que, dois dias depois do fecho das urnas, a 20 de Março, o Embaixador de Angola na Guiné-Bissau, general Feliciano dos Santos, teria acusado o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general António Indjai, de pretender implementar um golpe de Estado.

A jornalista portuguesa Helena Ferro de Gouveia, escreveu no seu blog Domadora de Camaleões sobre “as razões formais por detrás [da] tomada de posição dos militares guineenses”, e acrescentou:

o afastamento dos militares angolanos, que apesar de inúmeras críticas que lhe podem ser feitas têm sido o garante de alguma estabilidade no país, a Guiné mergulharia numa nova espiral de incerteza.

Mesa de voto para militares. Foto de Giuseppe Piazzolla copyright Demotix (15/03/2012)

Mesa de voto para militares. Foto de Giuseppe Piazzolla copyright Demotix (15/03/2012)

No início de dia 12, o Movimento Nacional de Sociedade Civil para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (MNSCPDD), tinha convocado uma marcha pacífica “com a finalidade de defender os valores democráticos, a Paz, a democracia”, exortando “as Forças de Defesa no sentido de se manterem neutras e equidistantes em relação à disputa política em curso no país”.

No entanto, poucas horas depois, dava-se início ao golpe.

Reações no Twitter e blogs

Pouco antes das 20h, o jornalista António Aly Silva, no seu blog Ditadura do Consenso, anunciava que “dezenas de militares [acabavam] de ser desembarcados na residência do candidato Carlos Gomes Jr. (à frente e nas traseiras), e também na delegação da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental)”, e que havia “muita gente a fugir, em passo de corrida, da cidade de Bissau”. Começaram depois a ouvir-se os primeiros disparos.

No Twitter, a comunidade internacional não tardou a reagir. InDepth Africa agregou uma série de tweets e vários mídia numa página Storify. Vários utilizadores, como Mel Huang (@mel_huang), mencionaram a onda de revoltas que tem acontecido em países próximos à Guiné Bissau.

George Ayittey (@ayittey), um professor de economia do Gana, desabafou:

Look, we are FED UP with these military brutes, bandits, vagabonds and coconut-heads: http://bbc.in/IHyHUv

Olha, já estamos FARTOS destes militares que são uns brutos, uns bandidos, uns vadios e cabeças de côco: http://bbc.in/IHyHUv

Ao que Majaliwa (@majaliwa68), da Tanzânia, retorquiu:

yes,in the same countries…it seems they occur repeatedly in same sample of countries NOT across Africa =stereotype!

sim, nos mesmos países… parece que ocorrem repetidamente na mesma amostra de países e NÃO por toda a África = estereótipo!

Aly Silva, deixa o apelo à comunidade internacional:

"Assim ficaram as traseiras da residência do Primeiro Ministro e candidato Carlos Gomes Junior". Foto de Aly Silva

"Assim ficaram as traseiras da residência do Primeiro Ministro e candidato Carlos Gomes Junior". Foto de Aly Silva

Mais de um milhão de guineenses estão reféns de militares…guineenses. Temos sido sacudidos e violentados, usurpam e tolhem-nos os nossos direitos, até o mais básico. Até quando mais a comunidade internacional vai tolerar que gente medíocre – alguma classe política, e militar faça refèm todo um povo? (…)

Nada justifica o levantar das armas, é intolerável o disparo de armas pesadas numa cidade com mais de quatrocentas mil pessoas. É criminoso, acima de tudo. Tiveram tudo para estancar a hemorragia e a orgia de violência. Sabem há muito que este é um país que nasceu, cresceu e vive sob laivos de militarismo.

(…) Não há tiros, nem feridos nas urgências e menos ainda corpos na morgue resultado de mais uma brutalidade da canalha. Não se sabe quem morreu – espero e desejo que ninguém tenha sido morto. Um país é o último, e único, refúgio seguro para o seu povo. Foi traumatizante ver mulheres e crianças a chorar; é triste ver homens e jovens a fugir de homens e jovens como eles.

Sexta feira de manhã, dia 13, o jornalista reportava que “há cada vez mais militares nas ruas, e alguns circulam mesmo em viaturas civis. A situação voltou a estar tensa, sinal de que alguma coisa não está bem. Entretanto, o autodenominado ‘Comando Militar’ fez sair um comunicado (não assinado) dizendo que a revolta foi por causa de um hipotético “acordo secreto”, entre a Guiné-Bissau e Angola, nas pessoas do Presidente interino da República, Raimundo Pereira, e do primeiro-ministro, Carlos Gomes Jr”.

O paradeiro de Carlos Gomes Júnior, vencedor da primeira volta eleitoral, e primeiro ministro à altura do falecimento do anterior presidente, continua desconhecido. A segunda volta das eleições está marcada para 29 de Abril, a ser disputada com o ex-Presidente Kumba Yalá, embora este se recuse a participar, tendo solicitado a anulação das eleições e exigido à Comissão Nacional de Eleições (CNE)  a retirada do seu nome e da sua fotografia do boletim de voto da segunda volta em protesto contra as irregularidades apontadas na primeira volta.