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Combater vs fortalecer estereótipos raciais nos media

Este artigo foi escrito por Carla Fernandes.

No dia a dia estamos expostos a imagens estereotipadas de todos os tipos e, muitas vezes, nem nos apercebemos disso. Já estamos habituados a ver a mulher como “o objeto sexual”, o negro como “o criminoso” ou o imigrante como “o problema”.

Grada Kilomba [en], especialista em estudos de racismo e pós-colonialismo na Universidade de Humboldt em Berlim, na Alemanha, acredita que os media assumem um papel importante no fortalecimento de estereótipos raciais mas que, por outro lado, não existe uma discussão aberta sobre racismo nos media.  

Segundo a académica de origem santomense, os meios de comunicação estão constantemente a mostrar “imagens e publicidades com negros na posição dos desprotegidos, dependentes, criminosos, exóticos”. Grada Kilomba diz ainda:

basicamente estamos a ser ensinados, todos os dias, quem é branco e o qual é o lugar do sujeito branco nesta sociedade. E quem é negro e qual é o lugar desse sujeito nesta sociedade.

Estas declarações foram feitas numa entrevista [en] em vídeo sobre como lidar com o racismo na Europa, da autoria de Chris Mckee e Tychicus Vasquez da Ragcha Media [en]. 

Grada Kilomba

Grada Kilomba (foto usada com permissão).

Representações nos media e alienação  

O mercado publicitário e a indústria cinematográfica, por exemplo, foram apontados por Grada Kilomba, como áreas onde se recorre a estereótipos raciais e étnicos para fazerem passar as mensagens que melhor servem os interesses dos seus produtores, sem grande preocupação pela forma com representam minorias em geral.

No contexto europeu, em que o negro é minoria, “Este é o grande trauma para as pessoas negras porque têm de se identificar constantemente com os heróis brancos e tens de rejeitar as personagens negras porque elas são a personificação do mal e dos criminosos. O inconsciente colectivo dos negros está pré-programado para estar num estado de alienação de despersonalização”, argumenta a especialista na área de estudos de raça.

Estereótipos raciais em publicidades

Anúncio da cerveja Devassa Negra.

Anúncio da cerveja Devassa Negra.

Mas os exemplos de estereótipos considerados ofensivos continuam e encontrar-se um pouco por todo mundo. No Brasil, em finais de 2013, o Ministério da Justiça abriu um processo contra a empresa Brasil Kirin (antiga Schincariol) por causa de um anúncio da cerveja Devassa Negra que exibia o desenho de uma mulher negra acompanhado pelas seguintes frases: “É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra. Devassa negra encorpada. Estilo dark ale de alta fermentação. Cremosa com aroma de malte torrado”.

Segundo algumas organizações de movimentos feministas negros, citadas pela imprensa brasileira, o anúncio reforça a imagem da mulher negra hipersexualizada. As queixas por parte de consumidores começaram a surgir logo em 2010, altura em que se iniciou a campanha.  

Em Portugal, a Zon, uma empresa de serviços de telecomunicações e multimédia, fez uma campanha com cartazes em que um homem com traços asiáticos dizia “aplovado” em vez de “aprovado” ou “o melhol pleço de semple” em vez de “o melhor preço de sempre”. A campanha lançada em 2013, foi considerada racista, por brincar com a ideia do homem de negócios japonês, especialista em tecnologia que se espanta com os avanços tecnológicos da marca mas que, ao mesmo tempo, tem dificuldades em expressar-se em português. O anúncio foi considerado um insulto aos membros de culturas asiática.

Media podem combater racismo

Os media informam, educam, inspiram e ligam pessoas a realidades desconhecidas. Eles são um espelho do mundo que nos rodeia e simulam experiências que nele se vivem ou poderiam viver. As mensagens transmitidas pelos media são codificadas de forma a que o maior número de pessoas as entenda e consiga descodificar. Uma das formas mais eficazes de codificar informação é utilizando estereótipos. É fixar significados e identidades para que estas se tornem reconhecíveis, familiares. No entanto, os estereótipos não passam de simplificações do real, o que os pode tornar perigosos aliados de preconceitos raciais como os exemplo acima citados ilustram. No entanto, se os media podem contribuir para a construção de estereótipos raciais, eles também podem ajudar a combater o racismo. Grada Kilomba, defende, que as pessoas negras, na Europa poderiam ir “tomando a palavra, reconstruindo livros, documentando a nossa história, falando, fazendo filmes, etc.” de modo a reconstruírem uma auto-imagem positiva, através dos mesmos media lhes negavam essa imagem.

Este artigo foi escrito por Carla Fernandes.