Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Jornalista português fala sobre rádios comunitárias da Austrália e Timor-Leste

Na Austrália, o programa “Voz Portuguesa” da rádio comunitária Vox Fm em Wollongong é emitido desde 1990 para a comunidade de língua portuguesa daquele município, no estado de Nova Gales do Sul. A comunidade de imigrantes portugueses desta região é uma das maiores e mais antigas na Austrália no contexto da imigração portuguesa. Actualmente, os censos australianos indicam que vivem 15.328 portugueses na Austrália (nascidos em Portugal) e 46.519 dizem-se luso-descendentes.

No Dia Mundial da Rádio, instituído pela UNESCO a 13 de fevereiro, estivemos à conversa com o jornalista português Manuel Ribeiro (@manuelribeiro), uma das vozes do programa, que nos fala sobre o papel da rádio comunitária nesta região da Austrália e também da sua experiência profissional de radiojornalismo em Timor-Leste.

Global Voices (GV): Quais são as origens do programa “Voz Portuguesa”?

Manuel Ribeiro (MR): O programa começou em 1990 por iniciativa de um grupo de portugueses da comunidade local que pretendiam divulgar informação sobre os eventos organizados pelo Kemblawarra Portuguese Sports & Social Club e pela Associação Portuguesa da Costa Sul. Os primeiros imigrantes terão chegado a esta parte da Austrália nos anos 50 para trabalhar na indústria metalúrgica. Actualmente, julgo que a comunidade de Portugueses e luso-descentes nesta área ronde as 5000 pessoas.

Locutoras do programa 'Voz Portuguesa' em acção

Locutoras do programa “Voz Portuguesa” em acção

O programa insere-se na rádio Vox FM, uma rádio comunitária de Wollongong cuja programação se divide pelos vários grupos representativos da comunidade, que é cultural e linguísticamente bastante diversa. É uma comunidade multi-cultural vibrante que inclui imigrantes, de vagas posteriores à colonização anglo-saxónica, provenientes, para além de Portugal, de outros países da Europa e, mais recentemente, de países do Médio-Oriente, América Latina e da Ásia.

GV: Qual o papel do vosso programa junto da comunidade de língua portuguesa? A que audiência se destina?

Programa 'Voz Portuguesa' da Rádio VoxFM em Wollongong, Austrália

Programa “Voz Portuguesa” da Rádio Vox FM em Wollongong, NSW, Austrália

MR: A “Voz Portuguesa” é um programa semanal de 2 horas que apresenta música em língua portuguesa, notícias locais e de Portugal, um talkshow sobre assuntos de interesse da comunidade, que por vezes inclui entrevistas em estúdio, e informação de agenda sobre eventos locais.

Temos conhecimento que a maior parte dos nossos ouvintes é composta por idosos que querem manter o contacto com a língua portuguesa e ouvir as notícias de Portugal e da comunidade. Alguns não dominam a língua inglesa e, por isso, este é um dos poucos media que falam a sua língua materna. Muitos deles telefonam a pedir músicas que recordam os seus tempos de juventude: música popular, folclore, fados.

Em 2013, a Vox FM iniciou a transmissão via Internet, o que vem expandir a nossa audiência potencial. O nosso objectivo é alargar a audiência a um público mais jovem, da segunda e terceira geração de luso-descendentes. A maioria não fala Português e, por isso, gostaríamos de dar-lhes a conhecer o que se faz em Portugal actualmente, a música e cultura mais contemporâneas. Por outro lado, a presença na Internet permite alcançar um público mais global, que comunica em língua portuguesa, em particular as comunidades timorense e brasileira que vivem noutros pontos da Austrália.

GV: Como caracterizas o panorama das rádios comunitárias na Austrália? Existem mais programas de rádio em língua portuguesa?

MR: Aqui as rádios comunitárias são bastante populares entre o público australiano porque são consideradas um meio de comunicação alternativo às rádios comerciais. Isso atrai as pessoas, que procuram música e informação de acordo com os seus interesses e backgrounds culturais. Por outro lado, o Estado australiano apoia financeiramente essas iniciativas. Os grupos de filantropia são também muito activos na dinamização de rádios comunitárias.

Para além do nosso programa de rádio, existem na Austrália três outras emissões de rádio ao serviço da comunidade de origem portuguesa no país. A “Rádio Lusitânia” em Adelaide é, tal como a “Voz Portuguesa”, um programa de rádio comunitária ao serviço das comunidades multi-culturais da Austrália, onde a comunidade portuguesa se inclui. A “Portuguese Radio” em Sidney e o programa nacional “SBS Radio Portuguese” são outras estações de rádio direccionadas para as comunidades de língua portuguesa. Por outro lado, a comunidade timorense em Liverpool (Sidney), com bastantes falantes em língua portuguesa, tem um programa de rádio que emite em língua tétum e língua portuguesa.

GV: Como radiojornalista já tiveste outra experiência de rádio em Timor-Leste. Qual é a importância da rádio nesse contexto?

MR: Em 2012, tive a oportunidade de ser correspondente da Deutsche Welle (DW) – Português para África, em Timor-Leste. Foi durante um período crucial para o país, já que nesse ano se realizaram eleições presidenciais e legislativas. Durante a minha estadia pude perceber que existem diversas rádios comunitárias e algumas comerciais, e que existe uma boa cobertura de rádio no país. As pessoas ouvem muita rádio, mais do que vêem televisão ou lêem jornais que ainda não estão acessíveis em todos os distritos. Por esse motivo, a rádio é o meio de comunicação mais importante no país, muitas vezes utilizado pelo estado e instituições não-governamentais para fazer chegar informação de interesse a todos cidadãos.

Manuel Ribeiro entrevista em Timor-Leste um mediador local para o repatriamento dos refugiados de Timor Ocidental

Manuel Ribeiro, correspondente da DW em Timor-Leste, entrevista um mediador local para o repatriamento dos refugiados de Timor Ocidental

A minha percepção foi de que estão em curso muitos projectos de desenvolvimento de rádios comunitárias, mas que ainda existe muito trabalho a fazer na área de formação em rádio e melhores condições de funcionamento. Um caso específico que observei de perto foi a rádio local de Oecussi [um enclave na zona ocidental da ilha de Timor], apoiada por uma organização de jornalistas australianos, em termos de equipamento e formação. As falhas prolongadas de electricidade impediam, no entanto, o seu funcionamento regular. Valiam-lhes os vizinhos, as Irmãs da congregação Dominicana, que, esporadicamente, lhes forneciam energia através de um cabo improvisado.

GV: Na tua perspectiva, quais são as vantagens da rádio?

MR: O que dá mais prazer em fazer rádio é estar em modo de conversa! Na rádio trata-se cada ouvinte na primeira pessoa e estou consciente que existem pessoas que acompanham o programa de forma fiel. No caso específico da “Voz Portuguesa”, que é emitido a uma hora marcada, isso é comum e é muito gratificante!

A rádio consegue manter o que sempre a distinguiu dos outros media. A sua mais-valia é o facto das pessoas sentirem uma maior proximidade com a língua falada e poderem ouvir rádio ao mesmo tempo que fazem outras actividades do dia-a-dia.

Leia também outros artigos que marcaram o Dia Mundial da Rádio no Global Voices Lusofonia:
13 fev 2014 - Narrativas do narcotráfico preenchem música rap da Guiné-Bissau
13 fev 2014 - Lusofalante: aproximando falantes de uma língua comum através da rádio