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Lusofalante: aproximando falantes de uma língua comum através da rádio

[Este artigo foi escrito por Elizah Rodrigues, responsável pela Direção, Roteiro e Produção do programa Lusofalante.]

Se temos a língua como um facilitador comum por que sabemos tão pouco sobre os “lusofalantes”? Por que quase nada nos chega, no Brasil, sobre artistas africanos ou portugueses (a não ser os mais conhecidos)? Por que tão poucos livros nos chegam às prateleiras? Por que sabemos tão pouco sobre as línguas formadoras da nossa própria língua? Nos falta curiosidade sobre os ingredientes deste ser orgânico e vivo que é a língua e o que ela carrega intrinsecamente sobre nosso modo de estar e perceber o mundo. 

Lusofalante indica...

Lusofalante indica…

É daí que nasce o projeto Lusofalante, um programa de rádio que “pretende ser um ponto de encontro e de troca entre os países lusofalantes”, apresentando “a diversidade cultural, linguística e artística que se desenvolveu através de raízes comuns e em continentes ao mesmo tempo tão diversos e tão semelhantes”.

Olhando para a língua como um agente facilitador de aproximação, o programa dirige um convite especial ao Brasil para que “se olhe mais demoradamente no espelho e se veja na África, em Portugal e nos demais países lusofalantes”. Porque há pontes que precisam ser refeitas, indica o blog do projeto:

O LUSOFALANTE reúne entrevistas, músicas, informações históricas e culturais sobre os diversos países Lusofalantes. As informações do programa interagem mesclando os locais de origem de cada entrevistado e as músicas apresentadas. Uma espécie de produto reciclado fruto das misturas e colagens da própria língua portuguesa que a torna tão rica, dinâmica e viva.

Clique para ouvir o teaser do programa de rádio Lusofalante

Clique para ouvir o teaser do programa de rádio Lusofalante

São estabelecidas trocas entre artistas, compositores, poetas, escritores, linguistas e produtores culturais, Lusofalantes, acreditando que se estivermos atentos ao que se passa em nossa volta, ao outro, teremos maiores possibilidades de questionarmos nossas próprias certezas. O Lusofalante trata dessa curiosidade que nos ajuda a olhar o mundo por ângulos diversos e assim, nos enriquecermos e nos redescobrimos no outro. 

Como diz o poeta e compositor brasileiro Siba:

Toda a vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar.

O fascínio de escutar o outro

“Apontando para as diversas cores, ritmos e falares destes países que de alguma forma se pertencem”,  entre os entrevistados do Lusofalante estão os moçambicanos Malangatana NgwenyaPaullina Chiziane, Stewart Sukuma e Costa Neto, os cantores Zeca Baleiro, do Brasil, e Lura, de Cabo VerdeJoel Rufino dos Santos e Vitor Ramil, Filipe Mukenga, Alemberg Quindins e Aureliano Souza, Nei Lopes, Ruth Monserrat, Calane da Silva, entre outros. Foram 22 entrevistados no total.

O programa sublinha com a música, esta busca de conhecimento mútuo porque possibilita a apresentação de artistas que mesmo tão próximos em termos de vínculos musicais, culturais e linguísticos, têm seus trabalhos pouco divulgados nos países lusofalantes.

A cada entrevista nos deparamos com informações que contam e recontam a história por ângulos diversos e por isso é tão fascinante escutar o outro. Cada entrevistado traz informações preciosas de todo o processo de construção histórica, política de que fazem parte.

Oiça a entrevista com Ruth Monserrat, do Brasil, no primeiro programa Lusofalante

Oiça a entrevista com Ruth Monserrat, do Brasil, no primeiro programa Lusofalante

Falar sobre línguas que desapareceram, ou línguas proibidas, ou línguas invisíveis, são maneiras de se trazer à tona a história de povos que foram dizimados, liberdades que foram conquistadas, versões de uma mesma história, contadas a partir do olhar de quem as conta.

Por exemplo, Ruth Monserrat, linguista do Brasil, nos contou que em determinada Língua Indígena, como não há o tempo possessivo, não temos como dizer “minha esposa”. Nesta Língua esposa é “aquela que faço estar ao meu lado”.

Por trás de cada língua, essa mistura diversa, viva e diária está um modo de estar no mundo, igualmente misturado, diverso e vivo.

Mário Lopes de São Tomé e Príncipe, amigo recente nascido das conexões do Lusofalante, produz um projeto chamado “Somos Todos Primos”. Dia desses observando as pessoas caminhando pelas ruas cheias do Rio de Janeiro, repeti baixinho “Somos Todos Primos”. Gostei de pensar assim. Deu-me uma sensação de pertencimento, um certo conforto inexplicável diante desta louca e maravilhosa aventura que é estar neste planeta tão vasto e tão pequeno.

Joel Rufino dos Santos no Lusofalante fala sobre o quanto não nos sabemos africanos. O quanto da cultura africana e, por conseqüência das línguas africanas, carregamos intrinsecamente na nossa maneira de estar, de ser, de falar. Observa o quanto deste esquecimento histórico ainda nos acompanha e não nos permite plena consciência de quem somos.

Pode ouvir Joel Rufino dos Santos, e também Vitor Ramil, ambos do Brasil, no sexto programa Lusofalante.

Pode ouvir Joel Rufino dos Santos, e também Vitor Ramil, ambos do Brasil, no sexto programa Lusofalante.

Nos sabermos no outro, nos sermos no outro, nos descobrimos nas “línguas que não sabemos que sabíamos”, como nos diz Mia Couto, escritor de Moçambique.

Pode saber mais e escutar todos os programas Lusofalante no blog. O conteúdo está também no iTunes da Universidade de Coimbra e no Radiotube. Acompanhe a página de Facebook para atualizações.

O Lusofalante é produzido por Elizah Rodrigues, Marcelo Brissac e Paulo Brandão, no Brasil, contando também com a produção em Moçambique de Stewart Sukuma e em Portugal de Costa Neto, além de Lílian Gomes na parte de blog e web no Brasil. O conteúdo do Lusofalante pode ser utilizado como material didático e pode ser veiculado em rádios públicas, universitárias e culturais. Foi um dos premiados no Prêmio Roquette-Pinto da Associação de Rádios Públicas do Brasil, ARPUB.

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