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Moradores do Rio de Janeiro se mobilizam contra alto custo de vida na cidade

Os moradores do Rio de Janeiro começaram a se mobilizar para combater os cada vez mais altos preços de hotéis, aluguéis, comida, roupas e entretenimento, que têm feito da Cidade Olímpica de 2016, e uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, uma cidade difícil de sustentar.

Com o humor próprio dos cariocas, a mobilização nas redes sociais remete o alto custo de vida na cidade a uma situação que perdeu o senso de realidade. O termo “surreal” tem sido cada vez mais usado para referir o que acontece no Rio de Janeiro. Foi esse aliás o nome proposto, com bom humor, pelo webdesigner Toinho Castro para a criação de uma moeda exclusiva para a cidade, em substituição à moeda brasileira Real: o Surreal. A proposta foi comentada em nota publicada em um jornal de grande circulação:

“Tem mais a ver com a nossa realidade”, diz, citando um diálogo-que-gostaríamos-de-ouvir: “Quanto é a água, moço?” E a resposta: “Cinco surreais…” [cerca de 2 dólares americanos]

"Os surreais: a cara da nova moeda que andam falando por aí..." Arte por Patrícia Kalil partilhada no Facebook.

“Os surreais: a cara da nova moeda que andam falando por aí…” Arte por Patrícia Kalil partilhada no Facebook.

A página do Facebook Rio $urreal – NÃO PAGUE  “divulga e boicota preços extorsivos” praticados na cidade. Criada em 17 de janeiro deste ano, em três dias já é seguida por mais de 95 mil pessoas.

A gente aqui não faz a apologia de “tudo tem que ser barato”. Não, não é isso. Quem quiser comer ostra, beber espumante, jantar em um lugar cujo chef estudou no Cordon Bleu… Bem, tem que arcar com este preço. E, de vez em quando, todo mundo tem direito a tomar espumante, comer uma iguaria, enxugar a boca com guardanapo de pano – se puder pagar por este luxo ocasional. Comer bem dá alegria, dá conforto, é um convite à confraternização.

Bons ingredientes custam caro. Funcionários bem treinados também. Logo, ninguém aqui acha absurdo pagar mais por aquilo que de fato custa mais. É o justo. E você merece fugir do feijão com arroz e do trivial de vez em quando. Não merece?

Duro mesmo é pagar R$ 30 reais por batata frita [cerca de 13 dólares americanos]. Ou R$ 11 por um suco [4,7 dólares americanos]. Ou R$ 8, R$ 9 ou R$ 10 por uma garrafinha de água mineral [entre 3,4 e 4,3 dólares]. Ou R$ 15 pelo aluguel de cadeira e barraca na praia [cerca de 6,4 dólares]. Estes são alguns dos absurdos.

Um “caso de hiper-surrealismo” foi relatado na página pela seguidora Clarissa Biasotto:

Hoje fui à praia do leblon e me deparei com um gringo sul-americano perguntando a um vendedor ambulante se ali era a praia do leblon. O vendedor respondeu que ali era copacabana, ficou enrolando o gringo dizendo que não sabia e no fim disse que aqui no Rio tudo é pago e que, por isso, a informação também era paga.. enfim, o gringo já tava pegando a carteira e perguntando quanto o ambulante queria quando eu tive que gritar pro gringo que era sim a praia do leblon.. o gringo chegou a perguntar se aquilo foi uma pegadinha.. enfim, achei vergonhoso, surreal..

Cardápio de barraca na praia de Ipanema partilhada no Facebook de Marketing na Cozinha

Cardápio de barraca na praia de Ipanema partilhada no Facebook de Marketing na Cozinha

Mas as denúncias mais comuns surgem na forma de fotos de cardápios com preços abusivos, como um strogonoff de frango por 72 reais (ou 30 dólares americanos), um misto quente por 20 reais e uma salada verde por 43 reais (respectivamente, 8,50 e 18,20 dólares americanos; ver foto à direita).

Os administradores do Rio $urreal indicam que a página foi criada acima de tudo com a “pretensão de contribuir para uma reflexão dos consumidores”:

Cabe a nós decidirmos quando queremos pagar o preço por determinada coisa – seja ela uma roupa, refeição ou um serviço. Está caro? Não compre. O prato é inviável? Mude de restaurante. Ainda assim não achou o que quer? Chame os amigos para jantar na sua casa. Foi à praia e o aluguel da cadeira tá um horror? Já pensou que ter a sua pode ser um bom custo-benefício? Consumo consciente – esta é nossa meta.

Outras iniciativas também se tornaram populares. A página Se Vira no Rio tem mais de 14 mil seguidores e divulga locais que praticam preços acessíveis para comer e se entreter.

A ascensão da bolha imobiliária

Em uma das publicações a página incentiva os usuários a partilharem soluções que permitam reverter ou impedir a inflação dos preços de moradia. Nos quase 300 comentários deste post, há vários casos relatados e algumas soluções propostas, muitas envolvendo algum tipo de “leis anti-especulação” ou intervenção estatal; outras motivando uma mudança de comportamento dos consumidores, como a busca de zonas alternativas na cidade ou a desistência das imobiliárias.

Muitos apostam também que a bolha do mercado imobiliário está prestes a estourar. Vinicius Bito Trindade, funcionário do Banco do Brasil, comentou:

há quem diga que o que encarece os imóveis aqui é o excesso de crédito para o financiamento… inflaciona o mercado e tal, assim que a política econômica mudar, a tendência é cair e ferrar quem estiver preso a uma prestação irreal…

Outra iniciativa para dar visibilidade ao aumento crítico de custo de vida no Brasil é o site “Tem algo errado ou estamos ricos??“, que compara anúncios de aluguel e compra e venda de imóveis no país e no exterior. Com isso, expõe altos preços, no Brasil, para imóveis velhos e em condições ruins, em comparação com valores semelhantes ou menores para imóveis charmosos e em boas vizinhanças, em países de primeiro mundo ou em desenvolvimento.

O site mostra, por exemplo, um apartamento de 600m2, no Rio, anunciado por 66 milhões de reais (ou quase 30 milhões de dólares americanos). Com alguns milhões a menos, seria possível comprar a mansão onde John Lennon escreveu as músicas Sargent Pepper's ou um prédio inteiro na nobre Upper West Side, em Nova York. Em outro caso, quitinetes (apartamentos de quarto e sala conjugados) saem por mais de 1 milhão de reais (cerca de 430 mil dólares). Com as publicações do site, é possível perceber que a explosão dos preços não é exclusiva do Rio de Janeiro:

Casinha em condomínio fechado em Valencia – Alicante (Torremendo) [Espanha]. Casa novinha em folha, perto da praia, perto de um clube de golf, em um condomínio fechado com tudo (solário, etc etc). garagem para 2 carros… bela vista… bla bla bla bla

casavalencia

casavalencia2

casavalencia3

casavalencia4

(…)

Imóvel novo, condomínio fechado com tudo, perto da praia, bonito, etc etc… quanto?? Cerca de US$88.952 (em torno de R$ 200/ 210 mil reais… depende desse dólar maluco oscilando)

Mas não fique triste brazuquinha… você tem belas opções aqui no Braziu… Na nobre cidade de Lajeado no RS… no bairro Planalto você encontra uma linda casa pelo mesmo preço!! Incrível não???

Dá uma olhadinha…

casalajeado

É uma versão + root (a rua não é pavimentada… não tem piscina no condomínio, clube de golf… praia… vista… mas… é reflexo de nossa proximidade com os países de primeiro mundo né?? fazer o q??

Para o período da Copa do Mundo, o Governo Federal tem anunciado medidas para conter o preço de passagens aéreas e hotéis, como a intervenção do Procon (órgão de defesa dos direitos do consumidor) e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação, a ANAC. Uma recente medida foi a autorização de 1.973 novos voos para aumentar a competição no setor aéreo durante os meses de junho e julho, nos quais a Copa toma lugar.

Optar por uma intervenção estatal para conter preços é sempre uma decisão delicada em Estados de livre mercado. Para o setor aéreo, que é regulado e considerado estratégico para os interesses nacionais, esta política já é uma realidade no Brasil da Copa. Mas a contenção de preços de bens de consumo é ainda um grande desafio para os brasileiros e também para setores tradicionalmente dinâmicos. Pelo menos nas redes sociais, a mobilização começou.

  • Leandro Martins M

    Quanto existir idiotas o suficiente pra pagar preços absurdos por algo
    que não vale tanto dinheiro, haverá espertos cobrando preços altos.

  • Paulo Proença

    O motivo destes aumentos são oriundos do decreto de outubro de 2013 que trata da MVA ou substituição tributária no Estado do Rio de Janeiro que ficou mais alta do país ,por que ?

    ver na google :

    Anexo I do Livro II – Fazenda RJ

    Já tinha o livro I e depois com o livro II novos percentuais que passaram ser aplicados, isto é que é surreal ,sendo assim tudo ficou mais caro . Quem vai reduzir os impostos.