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O sexismo na Alemanha: Dos sussurros ao grito de revolta

[Todos os links levam a sites em alemão]

A 25 de janeiro de 2013, lançou-se um grito de revolta – #Aufschrei – pela blogosfera germânica em resposta a um artigo publicado no semanário alemão Stern. Nele, a jornalista Laura Himmelreich descrevia o seu encontro com Rainer Brüderle, membro do Partido Democrático Liberal (FDP), alegando que este a abordou de forma imprópria e que teceu comentários sobre os seus seios.

A experiência vivida por Himmelreich é apenas um dos muitos exemplos de sexismo existentes no dia a dia. Agora, utilizadoras do Twitter começaram a relatar experiências semelhantes de sexismo casual, assédio e, em alguns casos, até de abusos sexuais, através da hastag #aufschrei (#gritoderevolta). Mostramos alguns exemplos a seguir:

@terrorzicke: Der Prof, der mir auf der Erasmus-Party zuraunte “I want to see you naked!” #aufschrei #England

@terrorzicke: O professor que, durante uma festa Erasmus, sussurrou-me “I want to see you naked!” (“quero ver-te nua!”)  #aufschrei #Inglaterra

@Ine_12e: Ich näh die Dammnaht enger als vorher, da wird ihr Mann sich sicher drüber freuen. Arzt nach Geburt #aufschrei

@Ine_12e: Estou cosendo a sutura perineal para ficar mais apertada do que antes, seu marido deve ficar contente. Médico, após um parto. #aufschrei

Aufschrei

Street Art em Karlsruhe. Imagem retirada do Flickr por theodoritsis (CC BY-ND 2.0)

@KatiKuersch: Der Vorgesetzte, der mir sagte, ich müsse nur mal flachgelegt werden, dann ginge es mir psychisch sicher besser. #aufschrei

@KatiKuersch: O supervisor que me disse que se alguém me fosse à espinha de certeza me sentiria melhor psicologicamente. #aufschrei

@marthadear: der vater einer schulfreundin, der auf ihrer geburtstagsfeier all ihren freundinnen poklappse gab. ich habe mich immer versteckt. #aufschrei

@marthadear: O pai de uma amiga dos tempos de escola que batia nos traseiros de todas as amigas nas festas de aniversário da filha. Eu escondia-me sempre. #aufschrei

@Wendelherz: Wie ich anfangs das Gefühl hatte, gar nix beisteuern zu können, und dann nach und nach alles hochkommt und ich kotzen möchte. #aufschrei

@Wendelherz: O sentimento inicial de não ter nada para contribuir, e depois a sensação de me ir lembrando de tudo aos pouquinhos e querer vomitar. #aufschrei

hanhaiwen: Und all die Leute die auf solche Vorfälle jemals mit einem verständnislosen „ja und?“ reagiert haben. #aufschrei

hanhaiwen: E todas as pessoas que, confrontadas com relatos de situações como estas, alguma vez responderam só com um “e daí?” #aufschrei

@sincerelyjurs: Und immer wieder das Gefühl, sexistische Situationen nicht als solche benennen zu dürfen, um nicht als Spaßbremse dazustehen. #aufschrei

@sincerelyjurs: E o sentimento constante de não poder classificar estas situações como sexistas sem ser acusada de ser desmancha-prazeres. #aufschrei

MmeCoquelicot: Es geht nicht darum, dass ich mich nicht wehren KANN. Es geht darum, dass ich es nicht ständig müssen sollte. #aufschrei

MmeCoquelicot: Não é uma questão de não PODER me defender. A questão é que eu não devia ter de fazer isso constantemente. #aufschrei

Muitos alemães julgam que o sexismo não é um problema existente na sociedade atual. Mas os tweets na categoria #aufschrei mostram que isto não é o caso e que, mesmo hoje em dia, o sexismo é um problema muito comum. Segundo o tweet de Journelle:

Was ich an #aufschrei mag,ist,dass dieser “Minisexismus” in der Masse mal sein ganzes hässliches Gesicht zeigt und nicht runtergespielt wird.

O que me agrada no #aufschrei é que, por uma vez, este “minisexismo” é retratado em massa, mostrando assim a sua verdadeira face, em vez de ser subestimado.

Antje Schrupp escreve sobre o valor-notícia do sexismo e investiga as causas do debate:

Auch viele Männer, die sich selbst gegenüber Frauen völlig korrekt verhalten, dachten bis vorgestern: Das ist zwar nicht schön, aber doch keine Nachricht – und suchten deshalb nach “Nebengründen”, die diese Veröffentlichung erklären könnten. Es braucht aber keine weiteren Gründe, um so eine Story zu veröffentlichen, denn es gibt inzwischen massenweise Frauen und auch Männer, die das durchaus für eine Nachricht halten. Die sexuelle Belästigung keineswegs für eine Lappalie halten, auch dann nicht, wenn sie sich auf “niedrigem Niveau” abspielt.

Muitos homens que nunca se portaram de forma imprópria perante mulheres achavam, até anteontem, que o assunto podia não ser bonito, mas também não rendia notícia – e por isso, procuravam encontrar razões adicionais para explicar a publicação. Mas agora já não são necessárias razões adicionais para publicar uma notícia deste tipo: um número cada vez maior de mulheres, e também de homens, considera que a notícia vale por si. O assédio sexual já não é considerado uma ninharia, mesmo quando se passa “a um nível mais baixo”.

Infelizmente, como muitas vezes acontece em debates do tipo, os utilizadores ignorantes ou mal-informados também sentiram a necessidade de fazer com que a suas vozes fossem ouvidas. Este foi um dos comentários mais amigáveis dentre aqueles que surgiram a criticar ou a ridicularizar a campanha:

@robby_eberlein: #aufschrei Wie langweilig und trostlos muss der Alltag sein wenn man sich über solchen Nonsens dermassen aufregen kann…..

@robby_eberlein: #aufschrei Os vossos cotidianos devem ser mesmo entediantes e desinteressantes para ficarem tão revoltadas com parvoíces deste tipo…

No seu blogue, Meike Lobo critica, entre outras coisas, a ambiguidade inerente aos termos “sexismo”, “assédio” e “violência sexual”:

Die Vermischung dieser Schlagworte überdramatisiert das Eine und — weitaus schlimmer — bagatellisiert das Andere. Die Grundhaltung mag bei allem eine ähnliche sein, nämlich die Objektifizierung des Gegenübers, aber das ist nach meinem Empfinden auch alles. Kindesmissbrauch und Vergewaltigung sind schwerste Verbrechen und allein schon dadurch ganz klar zu trennen von Sexismus, der zwar oft unangenehm, schmierig und geschmacklos, aber eben kein Verbrechen ist. Solche schlimmen Verbrechen für die Lösung eines sozialen Problems zu missbrauchen, empfinde ich als Ohrfeige ins Gesicht aller Opfer sexueller Gewalt (sie selbst mögen das freilich anders empfinden).

Misturar estes termos serve para dramatizar algumas situações e – o que é muito pior – para trivializar outras. Pode ser que a atitude geral seja a mesma em todos os casos – a objectificação do sexo oposto – mas a meu ver, para além disso não há semelhanças. O abuso de crianças e a violação são crimes hediondos, e por isso mesmo há que distinguí-los do sexismo, que pode ser desagradável, seboso ou de mau tom, mas não é crime. Na minha opinião, usar crimes tão graves para retratar um problema social é dar um tapa na cara de todas as vítimas de violência sexual (mesmo que estas possam não partilhar da minha opinião).

Homens sensíveis

Alguns homens mostraram melhor discernimento e prometeram reagir de forma mais sensível a estas questões no futuro. John tweeta:

@einbequemesbrot: Schon krass, dass es heute noch so zugeht. Werde in Zukunft aufmerksamer sein. #Aufschrei

@einbequemesbrot: É chocante ouvir que as coisas ainda andam assim. No futuro vou estar mais atento. #Aufschrei

No seu blogue Siegstyle.de, Alf Frommer descreve as mudanças de atitude decorrentes desta discussão:

Es steckt eben in jedem ein Brüderle. Eine Zoten-König oder ein Blicke-Belästiger. Ich sollte mein Verhalten überprüfen, auch wenn ich von mir selbst niemals annehmen würde, ich wäre ein Sexist. Aber vielleicht ist das gerade die Gefahr: ich halte mich für einen modernen Mann, der Frauen ernst nimmt und für die Gleichberechtigung und die Frauen-Quote eintritt. Trotzdem bin ich in einigen Dingen nicht besser als ein Ol’ Dirty Brüderle oder ein Franz-Josef Wagner, der eine Bildungsministerin zunächst mal nach dem Äußeren bewertet. Daher bin ich froh über die Diskussion – weil ich darin in erster Linie eine Aufforderung sehe, mich selbst zu überprüfen.

Há um [Rainer] Brüderle em cada um de nós. Um grosseirão ou um voyeur maroto. Apesar de nunca me ter considerado sexista, devia olhar para o meu comportamento. E talvez o problema seja mesmo isso: considero-me um homem moderno, que leva as mulheres a sério e que apoia as quotas femininas. E mesmo assim, em certas coisas, não sou melhor do que um velhaco do Brüderle ou um Franz-Josef Wagner (jornalista alemão), que medem uma ministra da educação de acordo com o seu aspeto exterior. É isto que me agrada nesta discussão – para mim trata-se de um desafio, para que olhe mais cuidadamente para o meu próprio comportamento.

A 25 de janeiro, o debate iniciado no Twitter chegou até aos veículos de imprensa tradicionais: Handelsblatt (um jornal económico de destaque) e Spiegel (um semanário noticioso). Desde então, o debate alastrou-se a toda imprensa, incluindo a televisão. Os principais noticiários abordaram o tema, ao mesmo tempo que sexistas e feministas se lançaram nos programas de debate político para discutir a terminologia usada, e debater se o sexismo é sequer um problema.

A visibilidade mediática deste debate cresceu tão rapidamente principalmente porque ele expõe a existência continuada de um fenómeno cultural que se acreditava ter sido superado há muito tempo. Como membros de uma sociedade moderna, os alemães parecem acreditar que questões como o sexismo e os estereótipos sexuais pertencem ao passado, mas os relatos patentes no Twitter afirmam o contrário. Isto levou a um debate aceso e emocional no qual sente-se, por vezes, uma certa falta de respeito e de sensibilidade para com o assunto. A hashtag do Twitter, enquanto isso, já se tornou global. Veja: #outcry e #assez.

Traduzido por Daniel Reifferscheid, tradutor em treinamento.