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Facebook russo de horrores: a trilha do assassino

RuNet Echo Este artigo é parte do RuNet Echo, um projeto do Global Voices para interpretar a internet de língua russa. Todos ·
Durante o fim de semana dos dias 12 e 13 de janeiro, a RuNet esteve chocada com a terrível notícia de um homicídio ocorrido em Moscou. Um chef de cozinha da região, Alexey Kabanov, supostamente estrangulou e desmembrou sua esposa [ru], Irina Cherska, mãe de três crianças pequenas. Segundo as autoridades, ele estava no processo de eliminar partes de seu corpo quando foi detido. Kabanov confessou o crime, instigando uma enorme onda de insulto online.
Embora centenas de homicídios domésticos ocorram na Rússia todos os anos, este parece ter atingido particularmente os internautas russos. Kabanov e sua esposa estavam estreitamente incorporados às comunidades russofônicas de protesto no Facebook. O exclusivismo desse grupo foi exemplificado por um tweet pertinaz [ru] do jornalista Oleg Kashin:

Бля, чувак, который жену убил и расчленил, подписан на меня в фб, и 146 общих друзей вплоть до Алины Гребневой((

Dr**a, o cara que matou e desmembrou a esposa me segue no facebook e temos 146 amigos em comum, incluindo até [a correspondente da Echo Moskvy] Alina Grebneva

Página do facebook de Kabanov. Captura da tela, 14 de janeiro de 2013.

Enquanto a conta do facebook de Irina foi removida, possivelmente a pedido de seus familiares, a conta de Kabanov [ru] possui mais de mil amigos (embora o número tenha diminuído desde a publicação da notícia). Foi a esse grupo de pessoas, assim como de suas respectivas redes sociais, que Kabanov suplicou para ajudarem a encontrar sua esposa, a qual, segundo alegou, havia deixado o apartamento após uma discussão. Esse grupo foi o que também ficou mais escandalizado, agora que parece que ele, na verdade, a matou e estava somente simulando estar à sua procura.
Em 6 de janeiro de 2013, Kabanov fez a seguinte atualização do status [ru]:

Друзья! Пропала Ира, моя жена. Вышла из дома 3-го утром и не вернулась. Полиция ее ищет. Но пока нет никаких результатов. В полиции говорят, что вернется и все будет нормально. Но чем больше проходит времени, тем меньше я в верю в это нормально. [...] Если все-таки среди наших общих знакомых есть кто-то, кто знает что с ней, то просто скажите, что она жива.

Amigos! Minha esposa desapareceu! Deixou o apartamento na manhã do dia 3 e não retornou. A polícia está a sua procura, mas ainda não há resultados. A polícia diz que ela vai voltar e que tudo ficará bem, entretanto, quanto mais o tempo passa, menos eu acredito neste “ficar bem.” […] Se um de nossos conhecidos em comum souber o que aconteceu com ela, então diga somente que ela está viva.

Exemplo de um panfleto produzido e distribuído por voluntários na busca por Irina Cherska. Captura da tela, 14 de janeiro de 2013.

Esse pedido mobilizou um número de pessoas que dedicou tempo e recursos para procurar Irina, utilizando a seção de comentários da atualização do status como um tipo de agência central de informações. Havia teorias sérias [ru] de que Irina poderia ter ido visitar seus pais na Ucrânia, e voluntários se oferecendo para se dirigir [ru] aos restaurantes e bares preferidos de Irina, entre outras sugestões. Diversas pessoas, por exemplo, ofereceram ajuda para contactar videntes e bruxas, explicando que [ru]:

При всем распространенном скепсисе нельзя исключать ситуацию, что Ире требуется какая-то помощь, в этом случае важно не терять времени, а этот способ ее отыскать самый быстрый.

Com todo o ceticismo normal, não deveríamos descartar a realidade de que Irina precisa de alguma forma de ajuda; neste caso é importante não perder tempo, e essa forma de encontrá-la é mais rápida.

Outras pessoas foram mais construtivas. Gennady Chichkanov, um suposto colega de Irina, se ofereceu [ru] para fazer pressão em seus contatos do jornal Komsomolskaya Pravda, para publicarem o desaparecimento. Usuários do Facebook afiliados a outros jornais também voluntariaram suas publicações. Como a busca era aparentemente inútil, pois ninguém havia visto Irina deixar o edifício do apartamento, um usuário, Alexander Belousov, fez pressão para Kabanov abrir uma investigação criminal ao invés de aderir ao boletim comum de “pessoas desaparecidas”. Ele explicou [ru] que tal investigação seria mais eficiente e teria acesso a mais recursos:

Алексей! Вам надо как можно быстрее писать заявление в Следственный комитет с просьбой о возбуждении уголовного дела. Вы только попусту теряете время и упускаете возможность просмотреть записи с камер метро и по ходу её движения.

Alexey! Você deveria registrar, o mais rápido possível, uma queixa perante o Comitê de Investigação e requerer o início de um procedimento criminal. Você está perdendo tempo e a chance de ver as gravações das câmeras de metrô e [outras câmeras] durante a movimentação dela.

Obviamente, a essa altura, Irina já estava morta e desmembrada, e câmeras não poderiam localizá-la. Este talvez seja um dos motivos que levou Kabanov a evitar o envolvimento da polícia para além de sua primeira queixa junto à delegacia local. A atitude de não-interferência foi estranha. Além disso, Kabanov falou de sua esposa somente no pretérito, e alegou que ela levou o passaporte consigo [ru] quando partiu. Irina era uma cidadã ucraniana sem registro na Rússia e, aparentemente, normalmente deixava seu passaporte em casa.  Alguns usuários do Facebook também acusaram [ru] Kabanov de apagar comentários que suspeitavam de seu envolvimento no desaparecimento de Irina.
Kabanov posteriormente publicou três atualizações de status de como a “busca” prosseguia. Em uma delas [ru], em 8 de janeiro, ele perguntou se alguém poderia ajudá-lo a levar seus filhos à escola. Provavelmente foi dessa forma que ele conseguiu o carro de um amigo da família, o qual, supostamente, mais tarde foi utilizado para começar a se desfazer das provas. No porta-malas desse carro foram encontradas algumas partes do corpo de Irina, após a polícia ter finalmente interrogado Kabanov.
A última atualização [ru] de Kabanov foi na sexta-feira (11/01), dia em que, logo após, foi preso. Agora há pouco menos de 2.000 comentários. Muitos são de amigos furiosos no Facebook que foram iludidos por sua dissimulação. A mais comum é a expressão de ódio do tipo “morra no inferno”, entretanto, alguns comentários apresentam peças valiosas de informação. A colega de Irina, Chichkanov, por exemplo, que parece estar em contato com a investigação, alegou [ru] que o passado de Kabanov como chef de cozinha e açougueiro contribuiu para a forma em que o crime ocorreu:

Про труп. Он его очень профессионально и быстро расчленял – на баранах рука набита была

Com relação ao corpo, ele o desmembrou muito profissional e rapidamente – tinha prática em fazer isso com os carneiros [carcaças que desmembrava como parte de seu trabalho]

Chichkanov também apontou [ru] o fato de que a polícia tinha conhecimento dos posts de Kabanov no Facebook, bem como estava rastreando de perto toda a situação online, e ainda tentou utilizá-los para embasar sua fundamentação:

[...] Чтоб вы знали теперь – даже заметки в КП писались так, как следователям было надо и некоторые мои комменты здесь тоже по просьбе следователей – мы его драконили и психически шатали. [...]

[…] Só para vocês saberem – mesmo as letras K[omsomolskaya] P[ravda] foram escritas da forma que os investigadores do crime desejavam, e alguns dos meus comentários aqui também foram postados a pedido dos investigadores – estávamos caçando-o e disturbando-o psicologicamente. […]

Por fim, é o aspecto interativo desta rede social na estória que a torna algo único. Milhares de pessoas assistiram à narrativa se desdobrar em tempo real, participaram, interagiram com o suposto criminoso, viram-na se tornar trágica e, então, reagiram – tudo sem deixar os assentos de seus computadores.
Acompanhe este espaço, estaremos apresentando uma visão a fundo com mais estórias relacionadas ao “Facebook de horrores russo“, nos próximos dias.

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