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Carro x Bicicleta I: Salvador na rota das bicicletadas brasileiras

O movimento internacional Massa Crítica, ou Bicicletadas como se popularizou em países de língua portuguesa, caiu no gosto do brasileiro devido a saturação do carro como veículo de transporte prioritário. Passando por Salvador, a colaboradora do Global Voices, Thiana Biondo, foi saber mais sobre a Bicicletada Massa Crítica.

A seguir, confira trechos da primeira parte da entrevista com Roque Júnior, estudante de Urbanismo da Universidade do Estado da Bahia e Rosa Ribeiro, Doutoranda do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia.

Global Voices (GV): Quando vocês começaram a pedalar dentro na cidade de Salvador?
Roque Júnior (RJ): Eu moro em Salvador há mais de 20 anos e pedalo há 10 anos. Quando eu comecei a pedalar aqui em Salvador, eu não tinha consciência da questão da cidade, do trânsito, de todas as dificuldades que depois fui percebendo e aprendi de uma forma muito empírica com um amigo.

Imagem da página de Facebook Bicicletada Salvador Massa Crítica (com 5.302 likes)

Imagem da página de Facebook Bicicletada Salvador Massa Crítica (com 5.302 likes)

Eu passei a andar de bicicleta com ele, mas não fazia percursos longos. Ia resolver coisa mais no centro da cidade e em bairros próximos, mas não andava em vias muito movimentadas e não tinha uma consciência da bicicleta como meio de transporte.

A virada foi, mais ou menos, há uns 3 anos, nos meus deslocamentos diários para o trabalho que são de 15,5 km do bairro Barra até o bairro Imbuí. Esse deslocamento me incomodava, essa coisa do ônibus e eu nunca gostei muito de carro. O que aconteceu. Um determinado dia, decidi, “vou tentar”, “vou testar (ir de bicicleta) para ver como é isso”. Fiz a primeira vez. Vi que não tinha problema até porque o percurso não é o que o ônibus faz e nem de carro você faria, de forma geral, porque eu vou pela orla, e na orla eu tenho a sorte de ter, em uma grande parte, a ciclovia. Fui aos poucos me condicionando fisicamente porque é também uma questão importante e com isso eu passei a andar de bicicleta diariamente como meio de transporte.

Rosa Ribeiro (RR): Eu já andava de bicicleta em Pituaçu, então tinha aquele esquema de levar a bicicleta de carro até Pituaçu ou até a orla. Eu tinha a bicicleta como lazer, mas a minha virada (risos) para copiar aqui um pouco o termo que o Roque usou se deu há 7 anos atrás. Em 2004, eu comecei a elaborar meu Trabalho Final de Graduação (TFG) na Faculdade de Arquitetura. Meu carro quebrou, aí eu fui pedir ajuda e algumas pessoas conseguiram tirar o carro da Paralela e entrar no Bairro da Paz. No contato que tive com aquelas pessoas, dentro daquela experiência, eu falei, pô, eu acho que meu TFG vai ser aqui. Comecei a andar no bairro e comecei a observar… Ficava na praça olhando e via um monte de bicicletas passando e principalmente homens adultos e crianças andando no bairro de bicicleta. Aí um dia eu perguntei para alguém “poxa e essas bicicletas estão indo para aonde? Vai ter algum concurso, competição, tem algum parque aqui?” Disseram “não, nada, não tô sabendo de nada não”. Dessa estranheza, eu fui na verdade, depois investigar melhor e fui ver que aquelas pessoas usavam a bicicleta de uma forma assim cotidiana, que era algo absolutamente comum e que aqueles homens usavam a bicicleta como um meio de transporte prioritário.

Bicicleta em Piatã, Salvador da Bahia. Foto de DavidCampbell_ no Flickr (CC BY-NC 2.0)

Bicicleta em Piatã, Salvador da Bahia. Foto de DavidCampbell_ no Flickr (CC BY-NC 2.0)

Eles faziam deslocamentos muito grandes na cidade. E o que a princípio era uma questão econômica, ou seja, uma forma de economizar o vale transporte na época; o vale virava uma moeda, trocava por pão ou comprava gás até, outras coisas… Mas também tinha uma questão que os levava a fazer isso, é que a bicicleta é um veículo, relativamente, muito flexível e muito mais rápido, dentro da cidade de Salvador. Por exemplo, um dos meus principais entrevistados, Emerson, ele ia do Bairro da Paz até Sete Portas em 35 minutos, então qual é o ônibus hoje ou carro que consegue fazer um percurso como esse em 35 minutos?… Quem andava de bicicleta, naquela época, em Salvador, e acho até que na maior parte das cidades brasileiras, era uma população de baixa renda e eram extremamente estigmatizados.

GV Percebi que vocês incentivam as pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte. Como vocês mobilizam as pessoas a se conscientizaram sobre o uso da bicicleta como meio de transporte? Através do Facebook? Há outros canais de comunicação, encontros? Como funciona esse ativismo da bike?

RJ: Há 3 anos atrás, mais ou menos, quando eu passei a andar de bicicleta como meio de transporte, passei a me interessar por isso, passei a procurar referências principalmente dentro da internet, em blogs, em notícias… É interessante, né, quando a gente passa a prestar atenção em alguma coisa, a gente sempre vai encontrando pessoas aos poucos que tenham interesse naquilo. Fui encontrando algumas pessoas, começando a trocar ideias.

"Ontem, por volta das 14:00, um motorista de ônibus, na av. ACM, quase me atropela." O relato de Eduardo Luedy em seu blog, De Velo em Salvador, em agosto de 2010.

“Ontem, por volta das 14:00, um motorista de ônibus, na av. ACM, quase me atropela.” O relato de Eduardo Luedy em seu blog, De Velo em Salvador, em agosto de 2010.

Em um determinado momento descobri um blog do Eduardo Luedy. Em um determinado dia, ele fez uma postagem em que contava uma situação que passou na Avenida ACM, na qual ele foi empurrado para fora da pista por um ônibus em alta velocidade. Ele fez uma postagem no blog, botou no Facebook. Eu fiquei muito incomodado pela situação, mas ao mesmo tempo feliz de ver aquela relato de uma forma clara, porque percebi que ali tinha elementos que mostrariam para as pessoas as situações que os ciclistas poderiam passar na rua. Peguei essa postagem e comecei a colocar em vários locais. Aí, então coloquei em alguns espaços, ao mesmo tempo que coloquei em alguns locais, fiz uma lista de e-mails com algumas pessoas que não eram amigos, mas eram conhecidos, pessoas que poderiam se interessar porque andavam de bike. Esse e-mail de desdobrou em uma série de coisas e eu acredito que isso foi um passo importante para se fazer a Bicicletada Salvador Massa Crítica.

GV: Quantas pessoas estão participando dessa organização

RJ: Durante um tempo, era um grupo em torno de 15 pessoas que faziam as reuniões, as propostas, cartazes, os estandartes. Mas agora, a Bicicletada aqui em Salvador, ela nunca passou de 90 pessoas participando no dia do evento.

RR: Agora, assim, essa formação dessas 90 pessoas que a gente conseguiu durante alguns meses, talvez durante um ano manter uma constância desse número, foi muito por conta de um esforço pessoal. A bicicletada é um evento social. Não sei se as pessoas vão muito pelo ativismo. Eu acho que existe um desejo de algumas pessoas de andarem de bicicleta e se veem identificadas…Existe uma rotatividade muito grande e hoje a gente tem uma Bicicletada que chega em torno de 25 pessoas.

A Bicicletada Salvador acontece desde 2010 e à capital baiana foi prometida o projeto Cidade Bicicleta, um sistema cicloviário de mais de 200 quilômetros. Se o projeto vai se concretizar ou não, se irá virar símbolo de orgulho para os baianos ou uma vergonha nacional (como o metrô, que após 12 anos ainda não começou a funcionar), isso é algo a ser visto nos próximos meses. Na segunda parte da entrevista Roque e Rosa darão a conhecer um pouco mais as políticas públicas relacionadas a mobilidade em Salvador.

  • http://www.facebook.com/valci.barreto Valci Barreto

    parabéns pela reportagem, pelos entrevistados, sobretudo por experiencias narradas como a de ROQUE e De ROSA RIBEIRO que demonstram o seguinte: não precisa de mais do que vontade, atenção, curiosidade como funcionam as coisas. Hoje, dispomos de muitas informações de como começar a pedalar. Mas as experiencias deles são lições para qualquer pessoa do planeta: não precisa de carimbos , burocracias, nem de ciclivias para começar. Com atenção é possivel nos livrarmos dos marginais do transito. A REPORTAGEM E UMA LIÇÃO: vou espalhar por ai, parabéns, MESMO, à jornalista THIANA BIONDO: FIQUEI FÃ!!!!! VALCI BARRETO, CICLOATIVISTA BAIANO, DE SALVADOR.

  • Clément Vialle

    Na minha opinião, a bicicletada contar com mais de 20 pessoas…eu falaria umas 30/40, 80 em dias especiais. Existia também em 2010 um grupo de 5/10 pessoas, o Va de bike, que jà tinha a postura de andar pelas ruas cobrando melhorias de forma espontânea, ocupando as faixas de tráfego. A bicicletada veio agregar vários grupos de Salvador com o mesmo intuito. Legal a entrevista, parabéns a vocês.

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