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Portugal em Protesto: “Queremos As Nossas Vidas”

Este post faz parte da nossa cobertura especial Europa em Crise

Saber-se-á em poucas horas se a manifestação Que se Lixe a Troika, Queremos as Nossas Vidas vai conseguir juntar números há muito não vistos de pessoas nas principais ruas e praças de Portugal. Quando a 7 de Setembro o Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho anunciou mais medidas de austeridade, parece ter dado motivos a uma massa cada vez mais generalizada da população para que saia às ruas e se manifeste. As medidas têm um impacto cada vez mais visível nos bolsos e contas dos trabalhadores, do público ou privado, ao final do mês.

A poucas horas do início das manifestações, já se tinham ultrapassado largamente os 100.000 cliques nas páginas dos eventos convocados através do Facebook para 36 cidades em Portugal, “um valor muito superior aos 69 mil da página da convocatória da manifestação realizada a 12 de março, que levou quase 300 mil pessoas para a rua”, tinha adiantado a RTP um dia antes. Para além das manifestações que tomarão lugar de Norte a Sul e ilhas no território nacional (mapeado por David Ferreira no Twitter), há também protestos marcados para Barcelona, Berlim, Bruxelas, Londres, Paris, Estados Unidos e Canadá, e até em Fortaleza, no Brasil.

Screenshot of the website O Governo Português Já Caiu? (Has Portuguese Government Fallen Already?) http://ogovernoportuguesjacaiu.com/

Contagem decrescente para a queda do governo. Screenshot do website “O Governo Português Já Caiu?” http://ogovernoportuguesjacaiu.com/

No Twitter, as hashtags #QueSeLixeATroika e #15sPT já estão em uso, bem como as habituais #Passos, #troika e #crise. A tag #15s está a ser partilhada com os protestos de dimensão ibérica que estão também a tomar lugar no dia 15 de Setembro em Espanha.

Nas redes sociais não têm faltado manifestações de criatividade nos preparativos para a manifestação, como ilustra o P3 na sua galeria de cartazes ou no Tumblr que aponta, Trespassa o Passos.

Qualquer cidadão-repórter pode partilhar as suas imagens num recém criado foto-blog que pretende centralizar e disponibilizar fotos dos protestos, O Que Diz a Rua, enviando mensagem através do Twitter (@fotosdamanif) ou por email (para o endereço “fotosdamanif” no Sapo.pt ou Gmail.com).

Têm sido partilhados vídeos na conta Youtube da organização da manifestação (queselixeatroika), como o flashmob realizado na véspera do 15 de Setembro, em frente às instalações do FMI. Os vídeos apelam à mobilização, ilustram as medidas de austeridade e o estado actual da economia no país, e tentam esclarecer alguns “Mitos e Desmitos da Troika”, como o vídeo que se segue intitulado Destroika:

“Neste momento todas as medidas de Austeridade impostas pelo Governo actual só servem para piorar ainda mais o estado das nossas economias”, acreditam os criadores do vídeo Basta Porra Basta, no qual o FMI é apresentado como “um Banco normal [que] quer os seus dividendos, pagos sem apelo nem agravo” e que “[está]-se a marimbar se o povo tem fome ou não”, enquanto que “os nossos Políticos de algibeira que foram criados nos seios da Maçonaria e dos Partidos Políticos, dizem sim a tudo o que esses abutres pedem, e forçam as medidas de Austeridade”.

E defende que “só existem duas maneiras de resolver esta “crise” de uma vez por todas”:

1ª Solução – Pressionar a Europa a criar urgentemente uma confederação de estados Europeus, com uma única legislação e mercado único apoiado directamente pelo BCE e governado a partir de Bruxelas. (…) E Portugal relega-se para uma posição de colônia balnear da Europa e prestador de serviços a nível Europeu, delegando o sector primário aos outros estados Europeus.

2ª Solução – Revolução e Independência da Nação Portuguesa! Todos os políticos e deputados actuais dos partidos do PS/PSD/CDS serão extraditados para um país da CPLP a ser designado. Entramos em incumprimento e saímos da União Europeia, ninguém paga mais um tostão da dívida. Voltamos ao Escudo e irá ser redigida uma nova constituição baseada no mérito e na igualdade de oportunidades entre cidadãos.

Sais à rua?

O Buraco” das contas públicas (resumido numa tabela publicada no blog Blasfémias) e as medidas tomadas para o tapar, conseguem desagradar uma faixa cada vez mais alargada de cidadãos e cidadãs. Uma carta do escritor e ensaísta Eugénio Lisboa, octogenário, dirigida ao primeiro ministro e reproduzida no blog de Eduardo Pitta, diz:

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados.

Resta saber que número sairá de facto às ruas nesta tarde de verão em que os termómetros marcam 30ºC.

Alguns podem deixar-se levar pela típica inacção que João Moreira de Sá (@arcebispo) ridiculariza no Twitter (com menção ao caso de corrupção que envolve a compra de submarinos no valor de 880 milhões):

se eu for para a praia com um cartaz “Abaixo os Submarinos” (que até contém ironia), conta? #15SPT

Outros repetem o manifesto Que Se Lixe a Troika, e dizem procurar “qualquer coisa de extraordinário”:

Se nos querem vergar e forçar a aceitar o desemprego, a precariedade e a desigualdade como modo de vida, responderemos com a força da democracia, da liberdade, da mobilização e da luta. Queremos tomar nas nossas mãos as decisões do presente para construir um futuro.

Este post faz parte da nossa cobertura especial Europa em Crise