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Brasil: Ativista Moçambicano Deportado Volta ao País e Denuncia Vale

Entre as mais de 45 mil pessoas que participaram da Rio+20, um moçambicano ganhou destaque por ter sido deportado do Brasil. Jeremias Vunjanhe foi impedido de entrar no país para participar como observador na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada no Rio de Janeiro entre 19 a 22 de junho de 2012.

No Twitter Bettina Riffel resumiu em alguns caracteres o que Jeremias pretendia fazer na Conferência. Segundo ela:

Jeremias Vunjanhe pretender expor a atuação da Vale em Téte (Moçambiq), onde explora uma das maiores minas de carvão a céu aberto do mundo.

Jeremias é jornalista e assessor de organizações de base comunitária, sendo integrante da ONG Justiça Ambiental – Amigos da Terra Moçambique. Neste vídeo, gravado pela Amigos da Terra em 2010, e nesta entrevista, de 2011, feita pelo Instituto Humanitas Unisinos, ele conta como a extração de carvão em Moçambique afeta diretamente milhares de famílias e provoca danos ambientais.

O projeto da Vale Moçambique consiste na pesquisa, prospecção e exploração mineira na bacia carbonífera de Moatize, uma das maiores reservas de carvão mineral não exploradas do mundo e de elevadíssima qualidade. (…) Há desrespeito dos mais elementares direitos humanos e liberdades básicas consagradas na Constituição da República de Moçambique e demais legislação em vigor.(…) Também há violação dos direitos à informação, à habitação adequada, ao trabalho e ao digno padrão de vida, às práticas e modos de vida tradicionais comunitários, bem como o acesso e preservação de patrimônios culturais materiais e imateriais.

Jeremias Vunjanhe. Foto de seu perfil no Facebook.

Jeremias Vunjanhe. Foto de seu perfil no Facebook.

Em seu perfil no Facebook, o próprio Jeremias confirmou a deportação:

De facto fui deportado do aeroporto Internacional de São Paulo no passado dia 12 de Junho corrente quando eram as 1 horas e 30 minutos. Não me foi dada nenhuma explicação plausível e consistente sobre a decisão do Departamento da Policia.

O Comitê Popular da Copa, que reúne entidades da sociedade civil e comunidades atingidas por obras de infraestrutura nas cidades que vão sediar jogos Copa do Mundo de 2014, questionou em seu perfil no Twitter:

@comitepopoa Por que Jeremias Vunjanhe entrou na lista do SINPI? Quais são os critérios para inclusão? Outros ativistas estão na lista?

Paulo Pavesi comentou sobre o assunto no post “Jeremias Vunjanhe e a Democracia”. Ele escreveu:

O governo brasileiro tem praticado a democracia de uma forma bastante interessante. Expulsando, demonizando, impedindo, calando aqueles que são contrários às medidas políticas ou que expõem o governo de alguma forma.

Nem a Polícia Federal nem o Sistema Nacional de Impedidos e Procurados justificaram a ação. Contudo, após mobilização de mais de 100 movimentos e organizações nacionais e internacionais, o jornalista retornou ao Brasil em 18 de junho, seis dias após sua deportação.

O Coletivo Catarse gravou a chegada de Jeremias Vunjanhe ao Brasil. No vídeo, Jeremias dá uma entrevista e conta o que ouviu da Vale, as consequências para as famílias moçambicanas e as promessas não cumpridas pela empresa:

Finalmente no Rio de Janeiro, Jeremias pôde participar dos eventos previstos, como a Marcha Anticorporações, que gerou o lançamento do Relatório de Insustentabilidade da Vale, e do III Encontro Internacional de Atingidos pela Vale. Além da ONG Justiça Ambiental, outras entidades denunciaram atividades da Vale durante a Cúpula, tais como: Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale, Via Campesina, Marcha Mundial das Mulheres, Comissão Pastoral da Terra, sindicato United Steelworkers (USW), Movimento Xingu Vivo para Sempre e o Movimento dos Atingidos por Barragens.

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos após a Rio+20, o jornalista considerou as propostas finais do evento como “demasiadamente teóricas“.

De volta a Moçambique, Jeremias compartilhou no Facebook um agradecimento a todos que o ajudaram nas semanas “de tanta turbulencia, emocao e adrenalina incriveis”. No dia 16 de julho, ele fez uma denúncia sobre a relação entre o ex-presidente da Vale e o presidente de Moçambique, Armando Guebuza:

Roger Agnelli, antido presidente da Vale entre 2001 e 2011 acaba de confirmar aquilo alguns de nos ja sabiamos. Ele faz parte do Conselho do Presidente de Mocambique Armando Emilio Guebuza. Na verdadeRoger Agnelli tornou-se um super lobbista da Vale e do Governo brasileiro e depois de ter vencido a ofenciva capitalista em Mocambique com o Projecto de Mineracao de Moatize foi escolhido pelo tambem loobista Armando Guebuza para ser um dos seus conselheiros. Como dizia uma companheira ha pouco ele participa de todas as decisões estratégicas do país quanto a mineração e possivelmente a energia e produção agrícola…

A Vale, que está presente em 38 países nas Américas, África e Ásia, foi eleita a pior empresa do mundo, por voto popular, no prêmio Public Eye Award no início de 2012.