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Brasil: Greve de Policiais e Arrastões Causam Pânico em Fortaleza

ATUALIZAÇÃO (04/01/12): Durante a madrugada, grevistas e governo entraram em acordo, e a categoria retomou suas atividades. No entanto, a Polícia Civil, que protestava há 5 meses por melhoria salarial, decidiu entrar em greve.

Às vésperas das festividades de Ano Novo, a população do estado do Ceará, Brasil, foi surpreendida com a deflagração da greve de policiais militares e bombeiros. Entre fatos e boatos sobre uma violência generalizada, a hashtag #CaosEmFortaleza tem agregado desabafos, denúncias, ironias e desinformação sobre o clima na cidade de Fortaleza, capital do estado.

Na noite de 29 de dezembro de 2011, policiais militares e bombeiros reuniam-se no quartel da 6ª Companhia do 5º Batalhão da Polícia Militar, no bairro Antonio Bezerra, em Fortaleza, e iniciaram o movimento grevista. Eles ocupam o quartel com reivindicação por valorização profissional, tanto de formação, como de melhores salários.

Com receio de violência, o governador Cid Gomes decretou estado de emergência e convocou o Exército e a Força Nacional de Segurança para patrulhar Fortaleza. O governador está na cidade, mas não fez aparições públicas ou pronunciamentos até o momento. As negociações têm acontecido entre o representante da Associação dos Profissionais de Segurança Pública (APROSPEC), a Procuradora Geral de Justiça, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil-Ceará e o Procurador Geral do Estado.

Pânico realçado com fatos e mentiras

Nos dias 2 e 3 janeiro de 2012, fortalezenses levaram aos Trending Topics Brasil as hashtags #CaosEmFortaleza, #aculpaedogovernador [A culpa é do governador], e a expressão ‘Cid Gomes'. Ao longo do dia 2 de janeiro, relatos compartilhados nas redes sociais e nos meios de comunicação falavam de assaltos a restaurantes e lojas, e de arrastões em avenidas e no centro da cidade. Todavia, houve questionamento quanto à amplitude da situação, uma vez que algumas imagens e informações veiculadas foram reveladas falsas.

A estudante Débora Vaz (@deboravaz) tuitou para pedir cautela:

Todo cuidado é pouco na hora de separar o que está acontecendo de verdade e o que é histeria coletiva. #CaosEmFortaleza

Uma imagem de bandidos em motocicletas, com armas em punho, foi amplamente divulgada no Facebook como sendo da periferia de Fortaleza. Horas depois, a verdade surgiu: a foto era de agosto de 2010, no Rio de Janeiro, durante conflito de policiais e traficantes de droga.

O usuário Thallis Cantizani (@tcantizani) fez um passeio de carro pelo bairro Barra do Ceará com um amigo para apurar sobre a alegada situação de tiroteios e assaltos no local. Encontrou uma situação diferente e narrou satiricamente em vídeo:

Galera, eu rodei por Fortaleza/Barra e não vi isso tudo que vocês estão dizendo, me desculpem #CaosEmFortaleza t.co/pK4m0qz5

Entre os comentários satíricos, estão o de @Rezenha_de_Gil, que tuitou com ironia que #Caosemfortaleza seria mais uma banda musical de forró, e o do usuário Gustavo (@gustavo_ns) brincando com a disseminação no Twitter do nome do governador, que ficou por quase uma hora nos TTs. Ele fez referência ao boato criado em 2010 em redor da expressão ‘Cala Boca Galvão', esclarecido pelo Global Voices:

Cid Gomes is a rare bird of the interior of Ceará are at risk of extinction

Cid Gomes é um pássaro raro do interior do Ceará em risco de extinção.

Na manhã do dia 3 de janeiro, a cineasta Juliana Ribeiro (@Juju_Ribeiro) desabafou:

Gente, sério: galera faz piada, mas o quão absurdo é a cidade inteira parada c/ medo d assalto s/ nenhuma notícia d negociação p/ resolver?

O jornalista Fábio Campos (@fabiocamposm) questionou o distanciamento do governador:

O governador erra ao não se pronunciar. Prevalece um vácuo de autoridade.

A estudante Camila Mont'Alverne (@camilambpp) criticou a forma de governo de Cid Gomes, que foi criticado em 2011 por sua reação à greve de professores e também por sua política de remoção de comunidades em vistas à Copa Mundial de 2014.

A usuária Bárbara Alencar (@BabiAlencarCE) relacionou a situação com as teorias apocalípticas de 2012:

Dizem que o mundo acaba em 2012…tinha que começar logo em Fortaleza? :( #CaosEmFortaleza

3 de janeiro, o dia em que Fortaleza parou

Pelo Facebook, usuários divulgaram a montagem do jogo Grand Theft Auto Fortaleza

Se muitos relatos foram provados falsos, com a motivação de desinformar e gerar mais pânico, figuras públicas deram seus relatos de primeira mão. A jornalista e apresentadora de TV Maísa Vasconcelos (@maisanablogo) tuitou:

Assalto, tiros e terror na Frei Mansueto, Varjota #Fortaleza. Eu vivi.

A escritora Socorro Acioli (@AcioliSocorro) tuitou o que viu de seu apartamento:

Arrastão na via expressa. bandidos param os carros com pedradas, mandam descer. Não é boato,estou vendo da minha janela.

No centro da cidade, as lojas fecharam após registros de arrastões e assaltos. O local, que geralmente tem muitos transeuntes e comerciantes ambulantes, estava vazio, como mostra a foto de Jarbas Oliveira (@jarbas_oliveira), via Twitter:

Foto compartilhada no Twitter pelo fotógrafo Jarbas Oliveira (@jarbas_oliveira): "Rua Pedro Pereira, no centro de Fortaleza, hoje às 14:28. Parece feriado de jogo do Brasil na Copa do Mundo."

Foto compartilhada no Twitter por @jarbas_oliveira: "Rua Pedro Pereira, no centro de Fortaleza, hoje às 14:28. Parece feriado de jogo do Brasil na Copa do Mundo."

No Facebook, a usuária Sabryna Esmeraldo procurou conscientizar com tudo o que havia visto e ouvido de amigos:

De boa, quem estiver dizendo que é só boatos e terror deve estar em casa, tranquilo. Várias lojas fechadas no centro, quase todas na Dom Manoel fechadas, ruas desertas, helicopteros e policia para o arrastao do Mercado Central, ônibus ameaçando parar (isso quem me disse foi um motorista de onibus), arrastao no HGF, tentativa no Cesar Cals, Shopping Via Sul fechado, lojas da aldeota fechadas, antonio sales e domingos olimpio tb. Essas todas ou eu vi ou pessoas realmente proximas me disseram. Não sei o quanto mais das outras coisas é boato, mas realmente to preferindo acreditar…

Effemberg (@Effemberg) tuitou sobre a impressão geral do dia 3 de janeiro:

03/01/2012 o dia que Fortaleza parou #CaosEmFortaleza

A sociólogia Márlia Paiva (@MarliaMaloca) ressaltou que, com a reclusão das pessoas em suas casas, o congestionamento característico às 18h simplesmente cessou de existir:

Faltam 15min p/ às 18h e não existe nenhum congestionamento em Fortaleza.Conseguiram acabar com o caos do trânsito em Fortaleza.Como foi? =P

Márlia Paiva divulgou também, pelo Facebook, uma foto tirada com seu celular de veículo do Exército na avenida Domingos Olímpio.

A repercussão da violência no cotidiano

Em virtude da possibilidade de violência, ao longo do dia os Correios e alguns postos de saúde paralisaram suas atividades. O fluxo de ônibus diminuiu desde o dia 2 de janeiro, pois motoristas alegaram falta de segurança nos trajetos a bairros tidos como perigosos.

Na noite de 2 de janeiro, a Justiça avaliou a greve como inconstitucional e determinou que retornassem ao trabalho, com multa de 500 reais por dia para quem descumprisse a ordem – a greve, contudo, prosseguiu.

No início da tarde do dia 3 de janeiro, a seção Ceará da Organização dos Advogados do Brasil (OAB-CE) divulgou nota de esclarecimento sobre a greve, em que aponta para a legitimidade da reivindicação dos policiais, embora critique a adesão em massa, por ter causado transtorno e perigo aos moradores. Enquanto o impasse não se resolve, a população segue acuada, com medo de sair às ruas.

  • karol

    tenham vergonham, e naõ tapem o sol com a peneira quem disse que essa onda de violência é boato,nossa naõ se igualhem a raça de colarinho,quero saber se invadissem a sua casa e colocasse um revolver na cabeça da sua mae levando tudo que vç comprou durante muito tempo,acordem mortos vivos.isso aconteceu no meu bairro bom jardim.qual é de vçs em elite?

  • http://rememorabilia.wordpress.com/ João Miguel D. de A. Lima

    Olá, Karol. Obrigado por compartilhar o seu depoimento. Sinto muito pelo que você experienciou. A violência se distribui de forma desigual na cidade, mas, nos últimos dias, o medo e a violência incomodaram também os mais ricos. Essa ‘explosão’ tornou evidente que temos ainda muito a fazer até que o Brasil se torne melhor, e que não seja uma melhora para as empresas, mas especialmente para nós, cidadãos brasileiros, seja em Curitiba ou em Rondonópolis, seja no bairro do Meireles ou no Bom Jardim.